O presidente Luiz Inácio Lula da Silva respondeu nesta quarta-feira (17) às declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, feitas ao final da cúpula do G7 em Évian-les-Bains, na França. Em coletiva de imprensa em Genebra, Lula afirmou que Trump "não pode violar a soberania e se meter nas eleições brasileiras" e defendeu a lisura do sistema eleitoral do país, após Trump classificar o Brasil como "politicamente perigoso" e divulgar informações falsas sobre a prisão de um "Bolsonaro Jr."

Lula defende soberania e critica declarações de Trump

A resposta de Lula foi direta: "Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto, não tem nenhum problema, é problema dele, afinal de contas, gosto não se discute. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil", disse o presidente. Lula acrescentou que espera que Trump "não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania".

Lula também afirmou que os "Estados Unidos poderiam aprender com o Brasil de eleições mais tranquilas, mais leves e menos conturbadas", destacando que, no Brasil, o resultado em todos os 27 estados é conhecido em duas horas após o encerramento da votação. Em tom irônico, disse: "Na próxima vez, vou levar a urna eletrônica para mostrar para ele como é que ela funciona". Sobre a ameaça de tarifas dos EUA sobre importações brasileiras, Lula classificou a medida como "uma coisa desaforada" e afirmou que Trump "ainda continua agindo como imperador".

As declarações de Trump e os erros factuais

Durante sua coletiva de encerramento do G7, Trump foi questionado por uma jornalista brasileira sobre a conversa que tivera com Lula. O presidente americano confirmou o encontro e disse: "O Brasil se tornou um país um pouco complicado. Ficou um pouco perigoso politicamente." Em seguida, afirmou ter ficado sabendo, logo após se despedir de Lula, que "prenderam o Bolsonaro Jr." e que ele "estava indo bem nas pesquisas" e foi preso por "fazer uma declaração no Texas".

A declaração de Trump continha ao menos três erros factuais graves: ninguém foi preso; a pessoa a quem Trump se referia, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, não é candidato à presidência; e Trump pareceu confundir Eduardo com o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato ao Planalto. Para completar, Trump usou a narrativa para reforçar sua retórica doméstica: "Eles jogam duro, mas ninguém joga mais duro do que os Estados Unidos. Nossas eleições são totalmente roubadas."

Tensões nas relações bilaterais

O encontro no G7 ocorreu em meio a tensões bilaterais. Os Estados Unidos anunciaram a possibilidade de tarifas adicionais de 25% sobre parte das importações brasileiras, o que levou Lula a não solicitar uma reunião bilateral formal com Trump, pois considerou que não seria adequado enquanto as negociações estão em curso. "Nós estávamos fazendo acordo", disse Lula, ao criticar a postura americana.

Outro ponto de atrito foi a designação formal, pelos EUA, das facções criminosas brasileiras Primeiro Comando da Capital (PCC) e Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas. Lula informou ter entregado ao governo norte-americano um documento detalhando as ações brasileiras de combate ao crime organizado e fez uma afirmação que resume parte do desgaste: "Todas as armas que a PF apreende no Brasil vêm de Miami."

Pano de fundo: desinformação e defesa da democracia

A confusão de Trump teve como pano de fundo a decisão da véspera: na terça-feira (16), a Primeira Turma do Supremo Tribunal Federal (STF) condenou Eduardo Bolsonaro. No entanto, Eduardo não foi preso, não é senador e não é candidato à presidência. Trump embaralhou nomes, funções e situação jurídica dos filhos do ex-presidente Jair Bolsonaro em uma única declaração, propagando informações sem qualquer respaldo factual para uma audiência global.

A fala de Trump segue um padrão de usar alegações falsas sobre processos judiciais para construir narrativas de perseguição política e questionar a legitimidade de sistemas eleitorais. No Brasil, essa retórica encontrou eco no bolsonarismo, que há anos tenta desacreditar as urnas eletrônicas e o STF.