O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) começou nesta terça-feira (16/06) sua participação oficial no G7, fórum que reúne as sete maiores economias industrializadas do mundo. O evento ocorre em Évian-les-Bains, na França. Lula foi convidado pelo presidente francês, Emmanuel Macron. Tradicionalmente, o anfitrião seleciona alguns países não membros para participar das discussões ampliadas a partir do segundo dia.
Também está na cidade francesa o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. A presença dos dois líderes no mesmo local gerou expectativas sobre uma possível interação, especialmente após o governo americano ameaçar aplicar uma tarifa extra de 25% sobre parte das importações brasileiras e designar as facções criminosas Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas.

Expectativas para encontro com Trump
Até o momento, não há confirmação de uma reunião bilateral entre Lula e Trump. Interlocutores afirmam que o governo brasileiro não solicitou um encontro privado à Casa Branca. Os dois líderes podem se cruzar durante as reuniões ampliadas ou nos corredores do evento.
Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, conquistar a atenção de Trump será um grande desafio para o Brasil, que compete com outras lideranças mundiais em meio a crises globais, como as guerras no Irã e na Ucrânia e a instabilidade nas relações transatlânticas causada pela política isolacionista de Trump.

Lauren Sukin, professora de Política Externa dos EUA da Universidade de Oxford, afirmou que um encontro com Lula provavelmente não é prioridade para Trump. No entanto, ela ressaltou que a administração Trump nem sempre planeja as cúpulas com precisão, podendo haver espaço na agenda. Sukin destacou que o Brasil pode se tornar atraente para Trump ao destacar vantagens em minerais críticos ou novas oportunidades de investimento como forma de se desvincular da China.
Crise global ofusca pauta brasileira
O foco da comunidade internacional está nos grandes conflitos atuais. EUA e Irã anunciaram na noite de domingo (14/06) um acordo de paz preliminar para encerrar o conflito iniciado em 28 de fevereiro. A assinatura está prevista para sexta-feira (19/06), quando se espera a reabertura do estreito de Ormuz. Segundo Clarissa Forner, professora de Relações Internacionais da UERJ, o tema deve ganhar destaque na agenda do G7, com Trump promovendo suas conquistas. A expectativa é que ele cobre da Europa mais apoio militar no Oriente Médio.

Já os europeus querem pressionar os EUA por mais protagonismo na ajuda à Ucrânia diante da invasão russa. Desde que Trump suspendeu a ajuda militar ao governo de Volodymyr Zelensky no ano passado, esse é um tema constante na relação UE-EUA.
Oliver Stuenkel, pesquisador da Universidade Harvard e professor da FGV, apontou que o G7 enfrenta uma crise interna devido à postura hostil dos EUA em relação a outros membros, como Canadá e Reino Unido. Isso reduz o espaço para consensos e a presença do Brasil não mudará a fragmentação geral.
Veto europeu à carne brasileira
A participação do Brasil no G7 também abre diálogo com a União Europeia. Há uma semana, o bloco proibiu a importação de carnes, tripas, peixe e mel do Brasil, com veto a partir de 3 de setembro. Segundo a Comissão Europeia, o país não comprovou que seus produtores atendem às exigências sanitárias, especialmente sobre o uso de antimicrobianos na cadeia produtiva.
Um encontro com Ursula von der Leyen e António Costa está previsto para esta terça-feira (16/06). O embaixador Philip Fox-Drummond Gough, secretário de Assuntos Econômicos e Financeiros do MRE, afirmou que o Brasil ficou surpreso com a medida e buscará resolver as questões. Oliver Stuenkel avaliou que uma reversão rápida é improvável e que o veto pode ser uma reação política ao acordo Mercosul-UE, que entrou em vigor provisoriamente em maio.
Agenda de Lula no G7
Lula já se encontrou com Macron na segunda-feira (15/06), tratando de cooperação em defesa, tecnologia e expectativas para a cúpula. Após a reunião, Lula publicou imagens nas redes sociais e afirmou que o fórum é uma oportunidade para o Brasil representar o Sul Global e reafirmar compromisso com paz, multilateralismo e desenvolvimento sustentável.
Reuniões bilaterais estão costuradas com a primeira-ministra do Japão, Sanae Takaichi, e com o primeiro-ministro do Egito, Abdul Fatah Khalil Al-Sisi, ambas na tarde desta terça. Lula também discursará em sessão sobre solidariedade internacional aos países em desenvolvimento, onde deve cobrar ampliação da Assistência Oficial ao Desenvolvimento (AOD).
Na quarta-feira (17/06), Lula participará de sessão sobre crescimento econômico equilibrado, defendendo reforma da governança global na OMC e ONU. A comitiva brasileira também participará de almoço sobre inteligência artificial, com presença de Sam Altman (OpenAI), Dario Amodei (Anthropic) e Arthur Mensch (Mistral). O Brasil quer influenciar o debate para evitar domínio do Norte Global e da China, além de defender maior regulação do setor tecnológico.
Por fim, a Presidência francesa espera assinar um entendimento sobre diversificação das cadeias de minerais críticos. O governo brasileiro tem interesse no tema, mas rascunhos apresentados até o momento podem não se alinhar totalmente à visão do Brasil. Não há decisão final sobre endossar o texto.