O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) encerrou nesta quarta-feira (17/06) sua décima participação em uma cúpula do G7, o fórum que reúne sete das maiores economias industrializadas do planeta. O evento foi realizado em Évian-les-Bains, na França, e o Brasil participou como convidado ao lado de outros países em desenvolvimento.

Durante a passagem pela cidade às margens do Lago de Genebra, Lula teve reuniões privadas com lideranças do Japão, Egito, Ucrânia, França, União Europeia (UE), além do presidente da Confederação Suíça, Guy Parmelin, e do secretário-geral da Interpol, o brasileiro Valdecy Urquiza. Nos corredores do evento, também cruzou com todos os líderes participantes, incluindo Donald Trump.

Encontro com Trump e troca de farpas

A expectativa para a interação com o presidente americano era grande devido ao tensionamento das relações diante da possibilidade de novas tarifas e da classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas. Em um vídeo obtido pelo portal ICL Notícias, Trump ao ver Lula nos corredores do hotel apontou em sua direção, caminhou para saudá-lo e deu um tapinha nas costas, dizendo: 'Tudo bem? Bom trabalho'. No dia anterior, na sessão de fotos oficial, os dois presidentes apareceram próximos, mas não houve cumprimento público registrado.

Após o término do fórum, em coletivas de imprensa separadas, os líderes trocaram farpas. Trump afirmou que o Brasil se tornou 'perigoso do ponto de vista político' e citou de forma atrapalhada a condenação do ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro na terça-feira (16/06), tratando-a como prisão de um candidato eleitoral. Eduardo Bolsonaro foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal (STF) por coação no curso do processo, crime que ocorre quando alguém tenta intimidar ou interferir em investigações judiciais, por articular nos Estados Unidos retaliações contra o Brasil para evitar o julgamento do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL-SP).

Lula rebateu em coletiva em Genebra, a cerca de 45 km da cúpula: 'Eu só espero que ele não fira o código de ética entre as nações que querem ser respeitadas na sua soberania. Para mim, ele pode continuar gostando do Bolsonaro, do pai, do filho, do neto — gosto não se discute. Agora, não se meta nas eleições do Brasil, porque as eleições do Brasil são um problema do Brasil'. O Palácio do Planalto afirmou que continua negociando com Washington após o governo americano anunciar a possibilidade de aplicar uma taxação extra de 25% sobre parte das importações brasileiras. Lula disse que sua equipe não pediu reunião bilateral, pois os assuntos já estão sendo tratados por diplomatas e técnicos, mas que não teria problemas em ligar para Trump se necessário.

Reunião com Zelensky e Ucrânia

No último dia da cúpula, Lula se reuniu a portas fechadas com o presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky. Segundo Lula, este foi o melhor encontro que já teve com o ucraniano e, pela primeira vez, sentiu Zelensky 'com disposição de encontrar solução' para o conflito. O brasileiro afirmou que ajudará no que puder e reforçou a importância dos membros permanentes do Conselho de Segurança da ONU (China, Rússia, EUA, França e Reino Unido) agirem de forma mais efetiva para acabar com a guerra, comprometendo-se a ligar para todos eles. Em suas redes sociais, Zelensky disse que teve 'uma boa reunião' e que ambos concordaram em fazer novos contatos sobre o tema.

Reunião com União Europeia e veto sanitário

Outro ponto alto foi a reunião bilateral entre Lula e Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, e António Costa, presidente do Conselho Europeu. Pouco mais de uma semana antes do G7, a UE oficializou a proibição de importação de carnes, tripas, peixe e mel do Brasil, com veto a partir de 3 de setembro, por falta de comprovação de exigências sanitárias. O veto não foi suspenso, mas ficou estabelecido um acompanhamento mais próximo das negociações sobre padrões fitossanitários, com uma visão mais 'política' para acelerar o processo. Esse mesmo acompanhamento será implementado nas tratativas sobre produtos siderúrgicos, já que em abril o bloco elevou de 25% para 50% as tarifas sobre importações de aço acima de cotas para proteger o setor diante da dominância chinesa. Von der Leyen afirmou que a Europa e o Brasil 'olham para o mundo com os mesmos olhos' e que o acordo UE-Mercosul, em vigor provisório desde maio, 'é apenas o começo' da parceria.

Brasil endossa apenas três declarações

Os líderes do G7 adotaram nove declarações durante o fórum, das quais oito poderiam ser endossadas pelos países parceiros convidados. O Brasil concordou apenas com três: combate ao câncer, garantia de um espaço digital seguro para crianças e adolescentes e luta contra o tráfico de drogas. As demais tratavam de desequilíbrios macroeconômicos mundiais, combate ao ebola, minerais críticos, parcerias internacionais para o desenvolvimento e combate ao contrabando de migrantes. Segundo uma fonte da diplomacia brasileira, o cenário reflete a dissonância entre o Brasil e as potências do G7 em muitos tópicos. O texto sobre mineração foi classificado por um interlocutor do governo como de 'visão extrativista' e 'anti-China'.

'Está ficando quase que um samba de uma nota só. Quando os convidados chegam à reunião, o G7 já aprovou seus documentos', afirmou Lula em Genebra.

O presidente brasileiro criticou o formato do fórum e disse que o Brasil não pretende entrar na briga entre Estados Unidos e União Europeia com a China. Defendeu a parceria do Sul Global com Pequim, afirmando que a China investe mais em desenvolvimento com taxas mais justas do que os países ocidentais: 'Não podem se queixar que a China está ocupando espaço se o espaço estava vazio'.

Negociações com Japão e Mercosul

Às margens da cúpula, Lula se reuniu com a primeira-ministra japonesa, Sanae Takaichi. Após o encontro, o Mercosul e o Japão anunciaram o lançamento formal das negociações de um acordo de parceria econômica, que ocorrerá na 68ª Cúpula de Chefes de Estado do Mercosul, prevista para o final de junho em Assunção (Paraguai). Os dois lados trocaram informações sobre áreas de interesse e expressaram satisfação com o progresso. A iniciativa reflete a estratégia de diversificação comercial do Japão diante das barreiras comerciais de Donald Trump e das restrições impostas pela China às exportações de terras raras. O Mercosul é um dos poucos grandes mercados globais com os quais o Japão ainda não possui um acordo de livre comércio.