O presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de volta da reunião de cúpula do G7 na França e com viagem marcada para Belo Horizonte na manhã desta sexta-feira (19), busca espaço na agenda para um encontro com o senador Jaques Wagner (PT-BA). O político baiano foi alvo da nona fase da Operação Compliance Zero, que investiga as relações da organização criminosa de Daniel Vorcaro, do Banco Master. Segundo apuração da Revista Fórum, Lula deve pedir a Wagner que se afaste da liderança do PT no Senado para que ele possa se defender das acusações.

Mal-estar no Planalto

A estratégia de Wagner de mencionar, em entrevista, uma conversa com Lula sobre o caso causou desconforto no Planalto. Interlocutores do presidente já teriam informado a Wagner sobre a necessidade de afastamento. Lula não teria autorizado o senador a divulgar que conversaram, mas Wagner fez questão de citar o diálogo. A orientação inicial era que ele desse entrevista para se explicar; no entanto, na visão de ministros palacianos, a justificativa foi insuficiente. Após a entrevista, Lula teria decidido se encontrar pessoalmente com Wagner para pedir sua renúncia à liderança do governo no Senado, recado já transmitido por interlocutores.

Sinalização de Wagner

Na mesma entrevista à BandNews, Wagner já havia indicado que pode deixar a liderança, aguardando ordem expressa da Presidência. “A liderança do governo fica a cargo do presidente Lula, com quem eu falei hoje, e eu acho muito difícil que ele mexa na minha posição pela relação que a gente tem e pela confiança que ele tem em mim”, afirmou. A declaração, porém, foi vista como pressão pública pela permanência, desagradando o Planalto.

Contradições e justificativas

Além de as explicações de Wagner serem consideradas insuficientes e atabalhoadas por aliados — especialmente sobre o apartamento de R$ 2,5 milhões que, segundo a PF, teria sido dado a ele por Augusto Lima em contrapartida à atuação política em favor do grupo Master —, o senador teve dois celulares apreendidos pelos investigadores, o que preocupa. A postura de Wagner diante do caso Master compromete a credibilidade de suas declarações, já que dias antes ele afirmara não ter relações com os negócios do grupo de Vorcaro. O receio é que as declarações contraditórias repitam o padrão das mentiras de Flávio Bolsonaro (PL), que precisou ajustar o discurso várias vezes ao ser desmentido sobre relações com Vorcaro.

Nota oficial de Jaques Wagner

Em nota divulgada na noite de quinta-feira (19), a assessoria de Jaques Wagner esclareceu que o senador não é réu, não foi denunciado e não foi acusado em nenhum processo relacionado aos fatos investigados. “O parlamentar acompanha com tranquilidade o andamento das investigações e mantém a confiança na condução delas”, diz o texto. A nota afirma que “o apartamento mencionado jamais integrou o patrimônio do parlamentar”. Contudo, na entrevista à BandNews, Wagner alegou que pretendia presentear a filha com o imóvel: “Sobre o apartamento, na verdade, é um apartamento que está em construção. Eu tinha interesse (em) dar o apartamento ou de ajudar minha filha a comprar um apartamento desse. Como o Augusto Lima (banqueiro) era um investidor, eu disse a ele: ‘Você pode comprar? Depois, eu vou recomprar. Porque o apartamento está em construção, não está pronto. Então, eu teria que vender o apartamento da minha filha para poder complementar e pagar o apartamento, ou ela financiar”. A nota também informa que o dinheiro apreendido “é fruto de diárias legais, declaradas e não utilizadas em missões internacionais oficiais”. Wagner reiterou que permanece à disposição das autoridades.