O presidente Luiz Inácio Lula da Silva defendeu a soberania digital dos países do Sul Global e cobrou uma atuação ética e responsável das grandes empresas de tecnologia, as chamadas “big techs”, durante o almoço de trabalho da cúpula do G7 realizado em Évian-les-Bains, na França, nesta quarta-feira (17). Convidado para o painel sobre inteligência artificial e proteção de menores na internet, Lula alertou que a tecnologia pode “ampliar — e não reduzir — as desigualdades”.
Defesa da soberania digital
O chefe do Executivo brasileiro afirmou que “o engajamento das grandes empresas de tecnologia é indispensável para que o futuro digital seja construído e vivido de forma segura, ética e alinhada ao interesse público”. Para ele, a regulação do ecossistema digital é central para proteger direitos fundamentais. Lula também destacou os avanços legislativos do Brasil na proteção à infância e pediu a aplicação de diretrizes globais para combater crimes cibernéticos, discursos de ódio e a precarização do trabalho.
Pix como exemplo
Como ilustração do potencial de uma estrutura gerida pelo Estado, Lula mencionou o Pix, sistema de transferências instantâneas que classificou como “uma de nossas maiores entregas para o cidadão brasileiro, um sistema de pagamento público e gratuito que serve como referência de como dados integrados podem promover inclusão financeira e eficiência digital”.
Regulação e governança
O presidente citou os progressos do Pacto Digital Global, aprovado na Organização das Nações Unidas (ONU) em Nova Iorque, e apontou o próximo passo crucial para estabelecer uma governança democrática da inteligência artificial: o Diálogo Digital da União Internacional de Telecomunicações (UIT), marcado para julho em Genebra. Lula reforçou que o Brasil seguirá fortalecendo um ambiente digital doméstico baseado em “segurança jurídica, previsibilidade regulatória e igualdade de tratamento entre empresas nacionais e estrangeiras”.
Relações com os EUA
A participação brasileira em Évian também chamou atenção pelos bastidores diplomáticos com o presidente americano Donald Trump. Os dois líderes trocaram cumprimentos cordiais durante um evento social na terça-feira (16), estiveram juntos em duas fotos oficiais e compartilharam espaço em uma reunião multilateral sobre desenvolvimento. No entanto, a esperada reunião bilateral privada não ocorreu. Segundo fontes do governo brasileiro, a ausência de agenda bilateral oficial decorre de temas espinhosos que travam a aproximação direta entre Brasília e Washington, como a ameaça de um “tarifaço” comercial americano e a decisão unilateral dos EUA de classificar as facções criminosas brasileiras Comando Vermelho (CV) e Primeiro Comando da Capital (PCC) como entidades terroristas. Interlocutores afirmaram que não fazia sentido solicitar uma reunião formal neste momento, pois as discussões sobre tarifas já ocorrem por meio dos ministérios.
Compromissos multilaterais
Apesar do distanciamento nas negociações privadas, a diplomacia brasileira manteve o foco na consolidação de propostas de consenso multilateral nas plenárias abertas do G7. Em seu discurso, Lula reafirmou a universalidade das Nações Unidas como o foro insubstituível para o equilíbrio democrático global.