O aumento da longevidade no Brasil tem transformado a relação dos profissionais com a aposentadoria. Cada vez mais, pessoas acima dos 50, 60 e 70 anos buscam novas ocupações formais, impulsionadas por necessidade financeira, realização pessoal ou desejo de permanecer ativos.
Em 2024, o Brasil registrou o maior nível de ocupação de pessoas com 60 anos ou mais desde o início da série histórica do IBGE: 24,4%. Na prática, uma em cada quatro pessoas nessa faixa etária estava trabalhando. A população com 60 anos ou mais chegou a 34,1 milhões, um crescimento de 53,3% em relação a 2012. A expectativa de vida aumentou nove anos desde 1940, alcançando 76,6 anos na média. Metade dos que permanecem no mercado, no entanto, é por necessidade.
"O nome aposentar-se é retirar-se para seus aposentos. Só que as pessoas hoje acabam se aposentando e continuam trabalhando. Fazem da aposentadoria uma segunda renda. Deveriam planejar melhor, continuar trabalhando para ter uma renda maior", afirma a advogada especializada em Previdência, Adriane Bramante, conselheira da OAB-SP.
Mudança de carreira na maturidade
Para quem segue no mercado, a mudança de carreira tem sido uma realidade, seja por desejo ou por imposição do etarismo. A psicóloga Elaine Sicari, 52, foi demitida durante a pandemia com doenças ocupacionais após 15 anos em instituições financeiras. "Com 45 anos, é difícil conseguir se recolocar, há muita discriminação por idade", relata. Elaine iniciou nova graduação em psicologia, formou-se aos 50 anos e hoje atende pacientes online, além de investir em especializações. "Não quero parar de estudar nunca", diz.
Aos 72 anos, Giuseppina Adele Rischioni dá aulas em cursos de graduação e pós-graduação e orienta trabalhos acadêmicos. "Sou aposentada, mas em nenhum momento parei de trabalhar", conta a professora, que mudou de carreira depois de décadas na área de recursos humanos na indústria. Seu marido, Marcos D. Paula, 66, também manteve rotina intensa após a aposentadoria como psicanalista em projetos de humanização hospitalar.
O professor universitário Vacelon Soares de Alencar, 53, planeja uma segunda carreira. Após 26 anos lecionando artes plásticas e teatro, cursou pós-graduação em psicanálise para atuar na área depois da aposentadoria. "Percebo como a sociedade está carente de escuta e posso fazer mais, posso ouvir e melhorar a vida de muitas pessoas", afirma.
A especialista em marketing Daniella Barcellos, 56, trabalhou quase três décadas nas áreas de marketing e planejamento comercial antes de migrar para recursos humanos e docência universitária, após um episódio de assédio moral que desencadeou burnout. "Encontrei meu propósito e comecei a transição aos 50 anos", diz. Ela destaca que a preparação financeira é fundamental para a mudança.
Fatores estruturais e desafios
Segundo Denise Guichard Freire, analista de indicadores sociais do IBGE, a participação dos idosos no mercado aumentou tanto em números absolutos quanto proporcionalmente, avanço ligado à maior longevidade, mudanças nos arranjos familiares, reforma da Previdência de 2019 e informalidade. Muitos idosos permanecem responsáveis pelo sustento da casa ou ajudam filhos que demoram mais para alcançar independência financeira.
Para Ana Amélia Camarano, pesquisadora sênior do Ipea, viver mais exigirá carreiras mais longas. "Porque quando você vive mais, e nós estamos vivendo mais, isso é um fato, as pessoas vão ter que trabalhar mais, poupar mais, se cuidar mais." Ela avalia que o país precisará avançar em políticas de empregabilidade para trabalhadores mais velhos.
Dados do MTE apontam crescimento da contratação formal em todas as faixas acima dos 50 anos entre 2024 e 2025. Os vínculos formais para trabalhadores de 50 a 59 anos cresceram 7,6%. Entre 60 e 64 anos, a alta foi de 12,2%. Já para quem tem 65 anos ou mais, o avanço chegou a 16,1%.
Apesar disso, a recolocação ainda encontra barreiras. Segundo Mórris Litvak, fundador da plataforma Maturi, grande parte das oportunidades destinadas aos profissionais mais velhos concentra-se em funções operacionais, com salários mais baixos. O levantamento "Transição de Carreira na Maturidade", realizado com 2.019 profissionais acima de 43 anos, mostrou que 90% não pretendem parar de trabalhar tão cedo. Entre aqueles que planejam mudar de profissão, 67,8% já estão em alguma etapa da transição.
O pesquisador Alexandre Correa, fundador do portal Revolução Prateada, aponta reflexões sobre propósito de vida. "Tem uma hora que você olha para trás e se vê infeliz na profissão que escolheu aos 17 anos. É legítimo dizer: não estou feliz nesse lugar. Dá para começar um outro curso aos 50, 60, 70 anos."
A economista Janaína Feijó, do FGV Ibre, afirma que o aumento de pessoas com 60 anos ou mais no mercado é fruto do envelhecimento populacional acelerado, mas também está ligado a mudanças na sociedade e ao aumento do custo de vida. Ela destaca que há dois grupos com demandas distintas conforme a escolaridade. Dados da Pnad Contínua do IBGE mostram que, em 2024, cerca de 54,3% (4,7 milhões) das pessoas com mais de 60 anos que estavam trabalhando tinham até o ensino fundamental completo. A taxa de informalidade entre os que têm mais de 60 anos é superior a 50%, chegando a 70% no recorte até o ensino fundamental completo.
Com informações de Folha — Mercado.