Três anos após o início do regime militar no Brasil, o artista Claudio Tozzi teve um mural seu destruído por manifestantes durante um salão de arte em Brasília. A obra, que retratava o líder revolucionário Che Guevara junto a uma multidão em protesto e garotos com fome, foi perfurada, e a moldura de madeira, danificada. O episódio, ocorrido em 1967, refletia o clima repressivo da ditadura e a forma como Tozzi, então com menos de 30 anos, abordava acontecimentos políticos em seu trabalho.

Em entrevista por vídeo, Tozzi relatou que o salão de arte foi perseguido e vários trabalhos foram retirados. O painel de Guevara, com 1,75 metro de altura por 3 metros de comprimento, foi destroçado, mas o artista conseguiu recuperá-lo e reconstruí-lo, adicionando massa à parte central perfurada e refazendo a moldura.

Além dessa obra, Tozzi produziu outras em alusão ao regime militar, como "Repressão" (1968), que mostra silhuetas de soldados de capacete. O artista também retratou temas como astronautas e o pouso na Lua, utilizando uma estética de cores chapadas inspirada em Roy Lichtenstein, marcando sua posição na arte pop brasileira, movimento conhecido como Nova Figuração.

Lançamento do livro

O livro "No Limiar da Imagem - da Retícula à Arena Pública", lançado pelo Instituto Olga Koss, recupera a história e a obra de Tozzi. A publicação reúne ensaios do pesquisador, professor e curador Diego Matos sobre as diferentes fases do artista, intercalados com imagens de pinturas, gravuras, serigrafias e objetos.

Tozzi explicou que utilizava a linguagem da arte pop americana por considerá-la de amplo contato com o público e acessível, o que permitia expor as obras em teatros, sindicatos e fábricas. No entanto, ele ressalvou que a estética popularizada por Andy Warhol, Jasper Johns e Lichtenstein estava ligada a uma sociedade industrial. "Não tinha nada a ver com a gente aqui, que vivia um momento bastante opressor, numa ditadura", afirmou.

Após o auge da arte pop e a instauração do AI-5 em 1968, que marcou o período mais duro da ditadura, Tozzi voltou-se a estudos mais aprofundados da pintura. Segundo ele, a repressão fez com que os artistas de São Paulo e do Rio de Janeiro se dispersassem, levando-o a se concentrar mais "na pintura como pintura".

Fases da obra

Nos anos 1970, um dos ícones frequentes em sua obra foi o parafuso, presente em pinturas, serigrafias e objetos. Posteriormente, passou a pintar elementos arquitetônicos como escadas e a criar quadros com grandes campos de cor, como estudos cromáticos. "Deixei de usar somente a paleta da pop art — azul, vermelho, amarelo, um pouco de verde, preto e branco — e passei a usar tons mais sofisticados na elaboração de vermelhos", disse.

Paralelamente à arte, Tozzi atuou como professor de comunicação visual na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, onde também se formou. Sua formação influenciou o caráter mais construtivo de sua obra, que se manifesta em trabalhos de arte urbana, como as grandes pinturas que decoraram o viaduto Tutoia, na avenida 23 de Março, no início dos anos 2000.

No viaduto, um trecho na direção do parque Ibirapuera era verde; outro, na direção do litoral, era azul, em alusão às águas do mar; e um terceiro, na direção do aeroporto de Congonhas, era amarelo, mantendo relação cromática com o laranja usado na sinalização da aviação. Tozzi explicou que a obra também considerou a imagem do cinema: "Quando o carro passava, você tinha a sensação de estar assistindo a um filminho. Tinha uma vibração", afirmou.

Com informações de Folha — Ilustrada.