Lideranças indígenas e pesquisadores alertam que o fim da Moratória da Soja na Amazônia pode intensificar o desmatamento ao redor de terras indígenas e facilitar invasões para o cultivo do grão. O acordo voluntário, vigente desde 2006, proíbe a compra de soja de áreas desmatadas após julho de 2008, mas enfrenta pressões políticas e a saída de entidades como a Abiove.
Segundo a maioria das lideranças ouvidas pela Mongabay, o enfraquecimento do pacto já provoca perda de floresta. O cacique Taú Metuktire, líder Kayapó, afirmou que o possível fim é "preocupante" e citou a contaminação de rios por agrotóxicos usados nas plantações vizinhas. "O veneno que estão pulverizando nas plantas vai chegar ao rio. Nós, indígenas, consumimos água que vem das fazendas, teremos diarreia e vários tipos de doenças", disse.

Alessandra Korap Munduruku, liderança do Pará, relaciona a dissolução da moratória a projetos como a dragagem do Rio Tapajós e a ferrovia Ferrogrão, que impulsionariam a produção de soja. "Eles já invadem, mas agora invadirão ainda mais. Querem terra, querem desmatar, querem matar. O importante é lucrar", declarou.
Oportunidade econômica divide opiniões
Em contraste, o líder Paresi Arnaldo Zunizakae defende o fim da moratória. Sua comunidade cultiva 17.800 hectares de soja na Terra Indígena Pareci, em Mato Grosso, e ele afirma que o acordo dificulta a comercialização legal. "Mesmo com todas as autorizações, parecemos criminosos quando se trata de vender nosso produto. Somos forçados a vender nossa soja clandestinamente", explicou. Zunizakae sustenta que o plano de gestão territorial da etnia, com áreas delimitadas para agricultura, impede desequilíbrios ambientais.

O governo de Mato Grosso sancionou lei que restringe incentivos fiscais a empresas signatárias da moratória. A Sema estadual afirmou que o acordo cria "lei paralela" e pune quem cumpre o Código Florestal. "Estratégias que segregam aqueles que cumprem a lei não são socialmente justas", declarou a secretaria.
Riscos ambientais e respostas oficiais
Cálculos do Ipam indicam que, sem a moratória, o desmatamento acumulado até 2045 pode ser 30% maior. Amazonas e Acre teriam aumentos de 114% e 70%, respectivamente. Maurício Voivodic, do WWF Brasil, alertou que o desmatamento já cresce em Mato Grosso, único estado com alta na Amazônia no último ano, ameaçando cabeceiras do Rio Xingu.

O Ministério do Meio Ambiente reconheceu que o fim do pacto pode ampliar a pressão sobre áreas desmatadas, mas afirmou que "os mecanismos de fiscalização ambiental e controle de crédito permanecem ativos e fortalecidos". A Abiove, que reúne gigantes como Bunge e Cargill, disse confiar que a legislação manterá os padrões socioambientais, sem comentar impactos em terras indígenas.
Enquanto isso, lideranças como Alessandra Korap comemoram a revogação do decreto que permitiria a dragagem do Tapajós. "Estamos lutando para manter a floresta de pé. Ainda garantimos água potável", concluiu.
Com informações de Mongabay Brasil.