Nos quatro primeiros meses de 2026, a letalidade policial no estado de São Paulo superou a do mesmo período de 2025, que já havia terminado com recorde de mortes cometidas pelas polícias sob o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos). Dados da Secretaria da Segurança Pública (SSP-SP) indicam 241 casos de morte decorrente de intervenção policial (MDIP) entre janeiro e abril de 2026, contra 233 no início de 2025 — um aumento de 3,4%.

O crescimento foi acompanhado por uma mudança geográfica: a região metropolitana de São Paulo, que concentrava 58,4% das ocorrências (136) no primeiro quadrimestre do ano passado, viu sua participação cair para 49,8% (120 casos) no mesmo período de 2026. O litoral paulista saltou de 8,2% (19 mortes) para 14,9% (36), enquanto o interior passou de 33,5% (78) para 35,3% (85).

Interior e litoral puxam alta

A intensificação fora da capital foi impulsionada por duas regiões. Na Baixada Santista, a letalidade aumentou em meio à Operação Verão, que já havia provocado recorde de mortes em 2024. Já na região metropolitana de Sorocaba, o número de MDIP subiu de 6 para 14. Em abril, um caso emblemático ocorreu em Sorocaba: policiais militares encurralaram quatro assaltantes em um carro e atiraram diversas vezes, matando três e deixando um sobrevivente. De acordo com a Ponte, os agentes sabiam do assalto, mas optaram pelo confronto; o sobrevivente afirmou que o grupo tinha apenas uma arma de brinquedo e pretendia se render. Na mesma ocorrência, um policial militar morreu baleado por um colega.

Para o advogado e pesquisador Almir Felitte, autor de A História da Polícia no Brasil: Estado de exceção permanente?, a dispersão da letalidade reflete uma política deliberada do governo Tarcísio. “Muito embora se saiba das peculiaridades do crime organizado paulista, hegemonizado pelo PCC e organizado de forma difusa e desterritorializada, a gestão Tarcísio passou a importar a narrativa de dominação territorial que norteia a segurança pública no Rio de Janeiro”, afirmou. Segundo ele, o ex-secretário Guilherme Derrite (PP-SP) defendia a retomada de territórios na capital (Favela do Moinho e Cracolândia) e na Baixada Santista, onde as operações Escudo e Verão deixaram um rastro de mortos.

Perfil das vítimas e atuação policial

Do total de 241 mortes, 53,5% das vítimas eram negras, 233 eram homens e 154 tinham entre 13 e 35 anos. A Polícia Militar foi responsável por 227 óbitos, e a Polícia Civil, por 14. Em abril de 2026, houve 63 MDIP, número 10% menor que os 70 registrados no mesmo mês de 2025. Ainda assim, a letalidade policial representou 23% das mortes violentas no estado naquele mês (210 homicídios dolosos mais 63 MDIP). Especialistas como Ignácio Cano consideram que o índice de mortes policiais em relação aos homicídios não deve ultrapassar 10%; Paul Chevigny sugere 7% como limite para abuso.

A SSP-SP afirmou, em nota, que “todas as ocorrências de mortes por intervenção policial são rigorosamente investigadas, com acompanhamento das corregedorias, do Ministério Público e do Poder Judiciário. Paralelamente, o Estado tem adotado medidas contínuas para redução da letalidade, como o aperfeiçoamento de protocolos operacionais, capacitação dos agentes e ampliação do uso de tecnologias e equipamentos de menor potencial ofensivo, como espargidores, bastões retráteis e armas de incapacitação neuromuscular, cujos investimentos superaram R$ 27,8 milhões na aquisição de mais de 3.500 unidades desse tipo.”

A pasta também destacou que o estado é referência em transparência e controle, com uso de Câmeras Operacionais Portáteis (COPs) que serão ampliadas para 15 mil unidades (aumento de 48,1% em relação à gestão anterior). O programa Muralha Paulista integra tecnologia, inteligência e bancos de dados, cobrindo mais de 70% da população paulista, com 612 municípios interessados e 226 já integrados.

Manutenção da política

Almir Felitte avalia que, mesmo com a saída de Derrite e a chegada do delegado Osvaldo Nico à SSP, a política de enfrentamento territorial se mantém. “As polícias continuam sendo uma base política importante do governo Tarcísio, com nomes espalhados por cargos eletivos e de nomeação em todo o estado e em Brasília. Então, me parece difícil que haja uma mudança estrutural até o fim dessa gestão, apenas ajustes narrativos e novos nomes”, concluiu.