Uma nova reviravolta na apuração do segundo turno das eleições presidenciais do Peru colocou a candidata de direita Keiko Fujimori à frente do candidato de esquerda Roberto Sánchez Palomino por apenas 561 votos. Com 98,2% das urnas apuradas, Fujimori registra 9.032.632 votos (50,002%), contra 9.032.092 de Sánchez (49,998%), em um universo de 27 milhões de eleitores aptos.
Votos do exterior garantem virada
A contagem dos votos do exterior, finalizada nesta quinta-feira (11), deu a Fujimori 63,4% dos votos, contra 36,5% de Sánchez, fator decisivo para a reversão da vantagem que Sánchez havia conquistado nos dias anteriores.

Resultado final depende de recontagem
Apesar do avanço da apuração, o resultado oficial só deve ser divulgado em julho. Isso porque 1,4 mil atas eleitorais foram questionadas e passarão por recontagem no Jurado Nacional Eleitoral (JNE). Dessas, a maioria é da região de Lima, onde Fujimori tem mais votos, conforme destacou o professor de pós-graduação de Integração da América Latina da Universidade de São Paulo (USP) Gustavo Menon. Ainda faltam apurar apenas 20 atas, de um total de 92,7 mil.
Análise de especialista
Menon, em entrevista à Agência Brasil, avaliou que o resultado apertado em um ambiente de desconfiança institucional reforça a percepção de um sistema político fragmentado, com baixa capacidade de gerar consensos estáveis e governos previsíveis. Para ele, a disputa evidencia uma sociedade profundamente dividida em termos territoriais, sociais e ideológicos.

“Lima e o interior, as frações de classes dominantes e os setores populares projetam no processo eleitoral um país quase antagônico. Keiko e o fujimorismo defendem a continuidade de um Peru marcado por políticas privatizantes, enquanto Sánchez propõe a refundação do Estado peruano”, afirmou Menon.
Histórico de reviravoltas na apuração
O segundo turno peruano tem sido marcado por sucessivas reviravoltas. Inicialmente, com apenas 20% das urnas processadas, Fujimori liderava por 200 mil votos, beneficiada pela contagem prioritária das urnas de Lima. Na segunda-feira (8), Sánchez ultrapassou numericamente a adversária, chegando a abrir mais de 40 mil votos de diferença. A vantagem foi se reduzindo até a nova virada de Fujimori.
Contexto político e perfil dos candidatos
O vencedor se tornará o nono presidente do Peru em dez anos de crise política, marcada por duas renúncias e quatro presidentes destituídos pelo Parlamento, considerado o poder de fato no país. Keiko Fujimori, filha do ex-ditador Alberto Fujimori (condenado por violações de direitos humanos, incluindo esterilização forçada de mulheres indígenas), perdeu as três últimas eleições presidenciais no segundo turno (2011, 2016 e 2021). Roberto Sánchez, psicólogo de formação e deputado pelo partido Todos pelo Peru, foi ministro do ex-presidente Pedro Castillo, destituído e condenado por tentativa de golpe de Estado ao tentar dissolver o Congresso. Apoiadores de Castillo consideram que ele foi vítima de um golpe do Legislativo, por representar o voto rural e indígena. No domingo (7), após votar em Lima, Sánchez visitou Castillo no presídio de Barbadillo, onde permaneceu até a divulgação dos primeiros resultados parciais.