Nas eleições peruanas realizadas em 7 de junho de 2025, a candidata Keiko Fujimori, do partido Força Popular, lidera a apuração com 99% das urnas contabilizadas, segundo o Escritório Nacional de Processos Eleitorais. Com uma margem de 1% à frente de Roberto Sánchez, da coligação Juntos pelo Peru, a disputa pelo segundo turno segue indefinida. O cenário reflete uma crise política que já colocou oito presidentes no poder nos últimos oito anos, desde a renúncia de Pedro Pablo Kuczynski em 2018.

Crise de representatividade e instabilidade institucional

O Peru vive uma erosão institucional sem precedentes na América do Sul. Desde que Kuczynski deixou o cargo para evitar um impeachment em 2018, sucessivos presidentes sofreram processos de destituição ou renunciaram. A força política que mais se beneficiou dessa instabilidade, mesmo quando não detinha maioria no Congresso, foi o fujimorismo — movimento liderado por Keiko Fujimori e herdeiro do regime autoritário de seu pai, Alberto Fujimori (1990-2000).

Entre os ex-presidentes presos estão Alejandro Toledo, Ollanta Humala, Martín Vizcarra e Pedro Castillo, todos detidos na prisão de Barbadillo, em Lima. O ex-presidente Alan García suicidou-se em 2019 para evitar a prisão. A corrupção sistêmica, especialmente envolvendo a construtora Odebrecht, atingiu praticamente todos os governos, sem a polarização partidária vista no Brasil.

Keiko Fujimori e o legado do fujimorismo

Keiko Fujimori, filha do ex-ditador, disputa a presidência pela quarta vez (2011, 2016, 2021 e 2025). Em todas as ocasiões anteriores, foi derrotada no segundo turno pelo chamado "antifujimorismo". Desta vez, seu rival é Roberto Sánchez, psicólogo e ex-seminarista, que foi ministro do governo de Pedro Castillo. Sánchez representa uma esquerda moderada, mas carrega o estigma de ter feito parte de um mandato desastroso, que terminou com uma tentativa de autogolpe e a prisão de Castillo.

O primeiro turno foi disputado por 35 candidatos, e a candidata mais votada obteve apenas 17% dos votos — aproximadamente um em cada seis eleitores. Essa fragmentação evidencia a falta de representatividade e a descrença popular. Muitos eleitores de Sánchez votaram não por ele, mas contra o fujimorismo.

Histórico de autoritarismo e alternância sem mudanças

Alberto Fujimori chegou ao poder em 1990 prometendo combater a crise econômica e o terrorismo do Sendero Luminoso. Seu governo implementou o "Fujishock", um ajuste neoliberal, e consolidou o autoritarismo com um autogolpe em 1992, quando dissolveu o Congresso e interveio no Judiciário. Esse período é visto como a "doutrina do choque" descrita por Naomi Klein, em que a estabilidade econômica e a repressão violenta ao Sendero geraram apoio popular, apesar das violações de direitos humanos.

Desde o fim do regime militar nos anos 1970, nenhum presidente peruano conseguiu eleger seu sucessor. A alternância sempre favoreceu a oposição, mas nenhum dos eleitos cumpriu as promessas de mudança. A esquerda peruana, criminalizada e rotulada como terrorista — prática conhecida como "terruqueo" —, nunca teve um papel estabilizador semelhante ao de outros países sul-americanos.

Governos recentes e a crise contínua

Martín Vizcarra (2018-2020) governou confrontando o fujimorismo e dissolveu o Congresso em 2019, mas foi destituído em um processo de impeachment em 2020. Sua deposição gerou protestos massivos, que levaram à renúncia do presidente interino Manuel Merino após apenas cinco dias. Em 2021, o professor e sindicalista Pedro Castillo venceu as eleições, mas seu governo foi marcado por ineptidão e instabilidade. Tentou dissolver o Congresso em 2022, o que levou à sua destituição e prisão.

Dina Boluarte, vice de Castillo, assumiu e governou até 2025 com aprovação de cerca de 3%, tornando-se a presidente mais impopular do mundo. Seu governo foi marcado por violência contra manifestantes, escândalos de corrupção (como o "Rolexgate") e leis que beneficiaram o crime organizado. Foi deposta no final de 2025, e desde então dois congressistas ocuparam interinamente a presidência.

Perspectivas para o segundo turno

Se confirmada, a vitória de Keiko Fujimori reforçaria a hegemonia da direita na região, mas difere de outros casos por não despertar entusiasmo popular. O fujimorismo já controla o Congresso e as principais instituições regulatórias, tendo esvaziado as ferramentas de combate à corrupção. Uma vitória de Sánchez encontraria enormes obstáculos para governar. Em ambos os cenários, a crise de representatividade permanece.

"Resta saber se Keiko buscará uma solução autoritária para a crise de hegemonia que se arrasta há décadas", questiona a análise do Intercept Brasil, que aponta para a possibilidade de um governo que reate com a obra do pai.