Pela primeira vez em mais de uma década, o rapper americano Ye, anteriormente conhecido como Kanye West, subiu ao palco de um grande estádio na Europa ocidental. O show ocorreu na noite de sábado (7) no GelreDome, em Arnhem, na Holanda, para um público estimado em quase 40 mil pessoas.
Do lado de fora da arena, um pequeno grupo de manifestantes protestou contra o comportamento antissemita do artista, incluindo o lançamento da música intitulada “Heil Hitler”. Já no interior do estádio, a atmosfera era de euforia, com os fãs cantando e dançando ao som de hits como “Power”, “Stronger” e “King”. Muitos dos presentes viam Ye ao vivo pela primeira vez, já que sua última grande turnê europeia ocorreu em 2014.
Ye pouco se dirigiu ao público, limitando-se a comentar: “Esse público é louco demais”. O cenário foi projetado para simular um globo gigante.
Diversos fãs afirmaram conseguir separar a arte do artista de seus comentários considerados odiosos. Domenico Wiener, de 25 anos, disse: “Estou aqui pela música, não pelo ponto de vista dele”. Ele dirigiu quase duas horas para assistir ao show e comprou os ingressos em fevereiro, preocupado se o evento ocorreria conforme programado.
Os manifestantes, em número de algumas dezenas, exibiam painéis eletrônicos com citações antissemitas de Ye e cartazes condenando o ódio contra judeus. Roger van Oordt, de 68 anos, viajou de Amersfoort para apoiar a comunidade judaica. “Os judeus não deveriam estar sozinhos aqui”, afirmou. Alguns fãs tiraram selfies em frente às faixas, que incluíam suásticas, enquanto outros riam. A maioria, porém, parecia ignorar o protesto.
A turnê europeia do rapper enfrentou oposição em diversos países. Em abril, o governo britânico o proibiu de entrar no país para realizar shows. Na França, um show em Marselha foi cancelado após oposição do Ministério do Interior. Na Suíça, o FC Basel cancelou a data em seu estádio, assim como um estádio na Polônia. Na Itália, autoridades cancelaram um show previsto para julho.
Na Holanda, a abordagem foi diferente. O prefeito de Arnhem, Ahmed Marcouch, concedeu a licença necessária para o evento, ignorando a pressão de parlamentares e grupos judaicos. Ele também convidou Ye a visitar o Museu do Holocausto em Amsterdã, mas o rapper não respondeu até sábado.
Ye está programado para se apresentar na Geórgia, Albânia, Portugal, Espanha e Flórida neste verão. Uma semana antes, ele cantou para mais de 100 mil pessoas em Istambul. Em abril, realizou seu primeiro show completo nos Estados Unidos desde 2021, em Los Angeles.
Gideon Querido van Frank, do Centro de Informação e Documentação Israel, que organizou o protesto, lamentou que a maioria dos manifestantes fosse judia. “Onde estão todos os meus amigos de antes? Me sinto sozinho”, disse.
Em janeiro, Ye publicou um anúncio de página inteira no The Wall Street Journal pedindo desculpas por suas ações antissemitas, atribuindo seu comportamento a um episódio maníaco de transtorno bipolar tipo I não tratado. “Não sou nazista nem antissemita”, escreveu. Muitos fãs em Arnhem concordaram que o transtorno bipolar foi o culpado. À venda, havia camisetas de US$ 58 (cerca de R$ 300) com um palavrão denunciando o transtorno.
Melanie van der Velden, de 20 anos, disse: “O clima está bom. Não acho que as pessoas estejam pensando nisso”, referindo-se ao comportamento passado do rapper.
Com informações de Folha — Ilustrada.