A Justiça de Santa Catarina determinou que a elefanta asiática Baby seja transferida do Beto Carrero World, em Penha (SC), para o Santuário de Elefantes Brasil, em Chapada dos Guimarães (MT). A mudança deve ocorrer em até 60 dias, condicionada à realização de exames.
A sentença do juiz Douglas Braida de Moraes, proferida nesta terça-feira (2), acolheu ação civil pública movida pela ONG Princípio Animal e rejeitou a destinação do animal ao Animália Park, em Cotia (SP), como planejava o parque catarinense. A decisão afirmou que a transferência para o Animália, onde Baby ficaria exposta ao público, representaria uma regressão de sua situação atual.
Baby não tem contato com visitantes desde 2024, quando o Beto Carrero anunciou o fim das atividades do zoológico mantido por mais de três décadas. O juiz declarou que a determinação se baseou nas características do animal, que tem estimados 32 anos e passou a maior parte da vida em cativeiro.
Após a publicação da reportagem, o parque de diversões catarinense disse ter recebido a sentença com respeito e tristeza. "Independentemente dos caminhos que levaram a esta decisão, nosso compromisso permanece o mesmo, garantir que todo o processo aconteça da forma mais segura, tranquila e cuidadosa possível para ela. Nossa maior expectativa é que ela tenha um futuro repleto de tranquilidade, saúde, cuidado e qualidade de vida", afirmou a instituição. O Animália Park declarou que não irá se pronunciar.
A sentença condenou a J.B. World Entretenimentos S/A, proprietária do Beto Carrero World, a pagar cinco salários mínimos mensais ao santuário durante 12 meses, contados após a chegada do animal a Chapada dos Guimarães. Os recursos deverão ser usados para custos de alimentação, tratamentos de saúde e auxílio aos tratadores.
A adaptação de Baby ao novo espaço deverá ser gradual, com monitoramento dos riscos comportamentais e emocionais devido à mudança de ambiente. O santuário terá de apresentar relatórios veterinários bimestrais nos oito meses seguintes à transferência.
O juiz disse não haver evidências de maus-tratos no Beto Carrero, no Animália ou no santuário e afirmou que "a evolução científica e jurídica conduz ao reconhecimento de que os animais não humanos não podem mais ser reduzidos à condição de meros objetos". "A moderna abordagem do bem-estar animal não se limita à mera prevenção de experiências negativas, mas impõe também a promoção de condições que possibilitem experiências positivas", declarou. O entendimento é de que Baby terá mais autonomia e socialização no santuário, onde vivem atualmente cinco fêmeas da espécie asiática.
Em nota, o santuário afirmou ter recebido a decisão com alegria e responsabilidade: "Agora, nosso foco é garantir que a transferência ocorra com segurança, cuidado técnico e tranquilidade, respeitando o tempo e as necessidades de Baby".
A ONG Princípio Animal também comemorou a sentença e declarou que o juiz reconheceu que a elefanta "é ser vivo individual, com história própria, dignidade e interesses que devem prevalecer sobre a lógica da exibição e do mercado".
A determinação da transferência acontece três meses depois de o santuário retomar a licença para receber novos animais. A Secretaria de Meio Ambiente de Mato Grosso havia suspendido a autorização em dezembro de 2025, na sequência das mortes das elefantas africanas Kenya e Pupy — ambas viveram menos de um ano em Chapada dos Guimarães após passarem décadas em cativeiros. Na época, a equipe jurídica do Beto Carrero havia se manifestado contra a mudança de Baby ao santuário, alegando preocupações com a saúde do animal.
Como a Folha mostrou, o santuário questiona o padrão dos recintos de zoológicos e critica a ideia de que a sociedade se beneficia com a exibição pública dos elefantes. A Azab (Associação de Zoológicos e Aquários do Brasil) defende que a exposição dos mamíferos ajuda a educar a população.
As cinco fêmeas têm 279,7 mil metros quadrados à disposição no santuário, cerca de 55,9 mil m² por indivíduo — com a transferência de Baby, a média será de 46,6 mil m² por animal. Em comparação, uma norma de 2015 do Ibama exige área mínima de 1.500 m² para dois mamíferos.
Com informações de Folha — Ambiente.