A Justiça de São Paulo aceitou a denúncia do Ministério Público contra a advogada e influenciadora digital Deolane Bezerra, acusada de lavagem de dinheiro para o Primeiro Comando da Capital (PCC). Com a decisão, Deolane — atualmente presa na Penitenciária Feminina de Tupi Paulista, no interior do estado — passa à condição de ré e terá dez dias para apresentar defesa.

Também se tornaram réus no processo da 3ª Vara de Presidente Venceslau o principal líder do PCC, Marcos Willian Herbas Camacho, o Marcola; seu irmão, Alejandro Herbas Camacho Júnior; e Everton de Souza, apontado como operador financeiro do esquema. A denúncia é desdobramento da Operação Vérnix, que investigou o uso de uma transportadora de fachada para lavar dinheiro da facção. A operação resultou na prisão de Deolane e de Everton.

Outros dois denunciados, Leonardo Alexsander Ribeiro e Paloma Sanches — sobrinhos de Marcola —, estão foragidos.

Defesas contestam acusações

A defesa de Deolane Bezerra, composta pelos advogados Aury Lopes Jr., Josimary Rocha de Vilhena, Luiz Ricardo Rodrigues Imparato e Rogério Nunes, afirmou em nota nesta quinta-feira (18) que o recebimento da denúncia é apenas uma etapa inicial do processo e não representa conclusão sobre os fatos. Os advogados sustentam que Deolane é inocente e não possui qualquer vínculo com organizações criminosas, e que seus rendimentos têm origem lícita e foram declarados aos órgãos competentes.

Já o advogado Bruno Ferullo, que representa Marcola, seu irmão e os dois sobrinhos, também contestou as acusações. Em nota, Ferullo destacou que Marcola e Alejandro Camacho estão custodiados em presídios federais de segurança máxima desde fevereiro de 2019, com rígidas restrições de contato e comunicação, o que, segundo ele, "torna inviável qualquer participação nos fatos investigados". Sobre os sobrinhos, a defesa nega que o simples vínculo familiar possa ser interpretado como prova de envolvimento criminoso.

Promotor aponta relação direta com família Camacho

O promotor de Justiça Lincoln Gakiya, responsável pela denúncia, afirmou à Folha que existe uma relação direta e íntima entre Deolane e a família de Marcola. Segundo ele, a influenciadora teria fornecido contas para a lavagem de dinheiro do grupo. Um dos indícios seria o aumento repentino de seu patrimônio, com ganhos superiores a R$ 140 milhões entre 2020 e 2022. "Ela tem relação direta com a família Camacho, além de relação de amizade íntima com integrantes, como Paloma e Alexandro, filhos de Marcolinha [Alejandro Juvenal Herbas Camacho, irmão de Marcola] também indiciados", disse o promotor, que considera praticamente comprovada a incompatibilidade entre as atividades profissionais de Deolane e seus ganhos financeiros.

Fala de Deolane em audiência

Após ser presa, Deolane chorou durante a audiência de custódia e afirmou que foi detida no exercício da advocacia. "Excelência, eu fui presa no exercício da profissão. À época dos fatos, eu advogava. É um processo bem antigo, de 2019, 2020. Eu quero deixar bem claro, mesmo sabendo que aqui não se trata de mérito, que eu fui presa por estar advogando, por uma quantia de R$ 24 mil depositada em minha conta, por um cliente que consta no próprio relatório da polícia o meu acompanhamento ao cliente", disse. Ela não identificou o cliente na ocasião.