Os juros reais no Brasil atingiram o maior nível desde a crise financeira global de 2008, com o Tesouro IPCA+ com vencimento em 2032 fechando a 8,47% ao ano na última semana. O movimento foi impulsionado por fatores geopolíticos, como o acordo entre Estados Unidos e Irã que derrubou o petróleo, e por decisões de política monetária nos Estados Unidos e no Brasil.

Contexto da semana

Na sexta-feira anterior, o IPCA de maio veio acima do esperado, mas as taxas do Tesouro IPCA+ caíram com o acordo EUA-Irã. Segundo Ricardo Trevisan, CEO da Gravus Capital, o dado de inflação não assustou o mercado por estar concentrado em itens vistos como choque de oferta. A mecânica do título explica parte da reação: o IPCA+ corrige o principal pela inflação, e uma alta do índice não exige taxa maior no mercado secundário.

Na quarta-feira, o Federal Reserve manteve as taxas de juros americanas, mas elevou projeções de inflação. O mercado interpretou o discurso de Kevin Warsh como sinal de juros altos por mais tempo nos EUA, o que pressionou os ativos brasileiros. Mais tarde, o Copom cortou a Selic para 14,25% ao ano, em decisão unânime, mas o comunicado foi considerado confuso por analistas. Luciano Sobral, economista-chefe da Neo Investimentos, afirmou que o BC aparentou mudar as regras do jogo para justificar o corte, gerando ruído.

Reação do mercado

O conjunto de fatores levou o Tesouro a suspender novamente as negociações no dia seguinte. Na reabertura, os prefixados saltaram mais de 25 pontos-base: o Prefixado 2029 foi de 14,47% para 14,73%, e o IPCA+ 2032 chegou a tocar 8,51% no intradia. No fim da semana, o alívio no exterior, tanto no Oriente Médio quanto nos títulos americanos, reduziu a pressão, mas o IPCA+ 2032 encerrou a 8,47%, o maior fechamento desde 2008. O Prefixado 2029 fechou a 14,89%, mais de meio ponto acima da Selic.

Visão das gestoras

Para a Kapitalo, que concentrou posição em juros reais, as taxas estão “elevadíssimas” e com espaço para cair. Bernardo Feijó, COO da gestora, atribuiu o movimento ao descompasso das contas públicas: “Há uma inconsistência entre política fiscal e monetária que justifica”.

A Vista Capital, em carta mensal, afirmou que os juros reais vão cair “por bem ou por mal”, seja por ajuste fiscal ortodoxo, seja por dominância fiscal que corroa a âncora de preços. Para a gestora, o CDI tornou-se “o ativo mais arriscado do Brasil”. Como proteção, montou posição em ações de shopping centers, que têm dívida em CDI e receita corrigida pelo IGP-M.

A Legacy Capital trouxe o diagnóstico mais sombrio. Gustavo Pessoa, responsável pela mesa de renda fixa, afirmou: “Não dá para pular de cabeça em nada, a gente está muito dependente do externo, a cor local está horrorosa”. A gestora mantém 80% do risco no exterior, e Pessoa alertou que, se o governo decidir discutir a meta de inflação, “a saída é Guarulhos”.

Orientações para investidores

Especialistas ouvidos recomendam não ignorar os títulos atrelados à inflação. Victor Furtado, head de alocação da W1 Capital, afirmou: “Jamais posso deixar de lado um IPCA+8%”. Ele destacou que, em 93% das vezes em que o IMA-B 5 superou IPCA+ 6%, o retorno em 12 meses ficou acima de 100% do CDI para quem comprou naquele momento.

A preferência recai sobre vencimentos intermediários. Trevisan, da Gravus, recomenda prazos entre 2031 e 2035, e a XP prefere duration de até seis anos. Nos prefixados, a recomendação dominante é de cautela, já que a curva precifica possíveis altas da Selic. Para quem já está posicionado, o conselho é de paciência, mirando na proteção do capital contra a inflação. Ângelo Belitardo, gestor da Hike Capital, projetou: “Como não temos nenhum cenário positivo para a NTN-B, devemos continuar com IPCA+8% até o final de 2026, até termos maior clareza nas eleições”.