Joana Mourão, irmã de Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão (conhecido como 'Sicário'), tornou-se uma peça central no Caso Master ao se apropriar do acesso ao iCloud do irmão morto. Segundo documentos da Polícia Federal (PF), ela usou esse trunfo digital para pressionar interlocutores da família Vorcaro, cobrando dinheiro e ameaçando divulgar informações comprometedoras à imprensa e às autoridades. O apelido de 'mulher-bomba', atribuído a ela nos bastidores da investigação, reflete o poder de detonação dos arquivos e mensagens deixados por Sicário, apontado pela PF como chefe do braço clandestino a serviço de Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master.
A cronologia do pânico no clã Vorcaro
O início do episódio remonta a março de 2026, quando Sicário foi encontrado morto em uma cela da PF em Belo Horizonte, durante a terceira fase da Operação Compliance Zero. Após o óbito, relatórios da PF tornados públicos por decisão do ministro André Mendonça (STF) mostram que Joana passou a pressionar o entorno dos Vorcaro imediatamente. Em mensagens interceptadas, ela expõe as dificuldades financeiras de sua família, exige providências e adverte ter material suficiente para 'acabar com a família inteira' de Vorcaro.

O teor do acervo é dimensionado por um diálogo interceptado pela PF, no qual Keysom Lúcio Silveira Moreira, primo de Joana, relata que ela passou a noite debruçada sobre o iCloud de Sicário e 'viu coisa demais'. A suspeita é de que os arquivos vão além de documentos bancários, incluindo indícios de espionagem institucional, como a invasão de sistemas restritos da PF, MPF, FBI e Interpol, conforme reportagens anteriores.
A tentativa de comprar o silêncio
A reação da estrutura ligada ao Banco Master, segundo a PF, foi a de tentar conter Joana e sua mãe, Denise Maria Machado, por meio de negociações. Manoel Mendes Rodrigues, o 'Manolo', figura-chave do grupo de choque 'A Turma', foi encarregado da missão. Em 28 de abril, Manolo realizou uma reunião com Joana e Denise no Rio de Janeiro, na qual foram discutidos o repasse de contratos, vantagens financeiras e a transferência de ativos ligados a Sicário. Mensagens capturadas mostram Joana reclamando da inércia de Henrique Vorcaro e ameaçando destruir a delação de outros envolvidos.
Para dar aparência de legalidade ao acordo, foi utilizada a empresa JM Consultoria e Participações Imobiliárias Ltda, administrada por Joana, com capital social de R$ 1 milhão. Os investigadores veem a empresa como possível canal para escoar os pagamentos pelos 'serviços' de Sicário.
O histórico de Joana em esquema de pirâmide
Documentos judiciais de 2022, referentes a uma ação na 28ª Vara de Goiânia, inserem Joana no polo passivo de um megaesquema de pirâmide financeira envolvendo as empresas Alcateia Investimentos e Maximus Digital. O Ministério Público de Minas Gerais já havia denunciado o núcleo original, incluindo Regis Cristiano Leite, Sicário, Denise e a própria Joana, por organização criminosa, crime contra a economia popular e lavagem de capitais.
A Alcateia, alvo de alertas da CVM desde 2017, prometia rentabilidades irreais. Quando o esquema ruiu, a operação foi transferida para a Maximus Digital, deixando cerca de 50 mil investidores no prejuízo. A transição entre as empresas foi blindada por um processo judicial (nº 1003566-10.2018.8.26.0001) que tramita em segredo de Justiça na 3ª Vara Cível do Foro Regional de Santana, em São Paulo. Esse sigilo, segundo a reportagem, ocultou os métodos de transferência de patrimônio e permitiu que o núcleo de Sicário continuasse operando até desaguar no Banco Máxima, embrião do Banco Master.
O esquema da Alcateia já utilizava a simulação de compra de imóveis rurais em Minas Gerais para inflar garantias em empréstimos no Banco Máxima. Esse método de supervalorização de ativos para forjar lastro é semelhante à fraude bilionária que levou à liquidação do Banco Master pelo Banco Central em novembro de 2025.
O impacto no STF
As extorsões de Joana e a articulação de grupos como 'A Turma' e o núcleo cibernético 'Os Meninos' (hackers presos pela PF) foram usadas pelo ministro André Mendonça como argumento para manter Henrique Vorcaro preso. A decisão foi referendada pela Segunda Turma do STF, com voto vencido do ministro Gilmar Mendes.
Até o momento, os investigadores apuram se a compra do silêncio se concretizou. A PF ainda tenta decriptar a 'caixa-preta' digital de Sicário, que está sob análise.