Ivanka Trump, filha do presidente dos Estados Unidos, anunciou em entrevista a um podcast o projeto de um resort de luxo na costa da Albânia. O empreendimento, apoiado por ela e pelo marido, Jared Kushner, abrange a desabitada Ilha de Sazan e uma faixa de praia na área protegida Paisagem Protegida Vjosa–Narta, gerando críticas de ambientalistas e protestos na capital Tirana.
Detalhes do projeto
Na entrevista, Ivanka Trump descreveu a Ilha de Sazan, uma antiga base militar da era comunista, como uma “incrível e belíssima ilha privada de 1.400 hectares no meio do Mediterrâneo”. O projeto inclui cerca de oito quilômetros de litoral albanês para construção de resorts e hotéis. A segunda área, Pishë Poro-Narta, fica dentro de uma zona protegida que abriga espécies ameaçadas como focas-monge, tartarugas marinhas e mais de 200 espécies de aves, incluindo flamingos e pelicanos.
O presidente da Sazan Real Estate Development LLC, Asher Abehsera, afirmou em nota que o grupo está “entusiasmado com a oportunidade de criar um destino de padrão mundial” e que o foco é “gestão responsável, melhoria ambiental, geração de empregos e criação de valor de longo prazo para as comunidades locais”.
Reações e controvérsias
Grupos ambientalistas denunciaram que obras já estariam em andamento na área protegida. O diretor europeu da BirdLife, Ariel Brunner, afirmou que, em visita no início de maio, foram encontradas escavadeiras removendo areia e caminhões espalhando cascalho, sem sinalização de licenças ou autorizações. A organização albanesa PPNEA declarou que parte dos danos ecológicos às dunas de areia “já é irreversível” e que as obras bloquearam uma das aberturas da Lagoa de Narta, interrompendo a troca de marés.
O primeiro-ministro albanês, Edi Rama, insiste que o projeto “ainda não começou oficialmente” e que o “impacto ambiental ainda está sendo avaliado”. Ele afirmou que o grupo de desenvolvedores contratou uma consultoria para avaliar os impactos e que desenvolvimento e preservação “podem coexistir”.
Críticos levantam preocupações sobre conflitos de interesse, já que Kushner atua como enviado especial do presidente Trump e recebeu apoio de fundos soberanos de países como Arábia Saudita e Catar. O órgão anticorrupção albanês SPAK abriu uma investigação relacionada ao projeto, sem fornecer detalhes.
Mudança na legislação ambiental
Parte da reação negativa decorre de uma alteração na lei ambiental da Albânia, aprovada em 2024, que passou a permitir a construção de resorts de luxo dentro de áreas protegidas, isentando “empreendimentos de excelência, cinco estrelas ou mais”. A BirdLife classificou a medida como “um dos textos legislativos mais agressivos” na área ambiental. A mudança não está alinhada à legislação da União Europeia, o que tem sido um ponto de atrito nas negociações para a entrada da Albânia no bloco.
Um porta-voz da Comissão Europeia afirmou que o Ministério do Meio Ambiente albanês se comprometeu a “suspender as obras de construção” e que as investigações do SPAK “aparentemente vão além das questões ambientais”.
Protestos e manifestações
Manifestantes realizaram atos na área protegida e em Tirana, com cartazes de flamingos e tartarugas, entoando o slogan “A Albânia não está à venda”. O biólogo Melitjan Nezaj, da PPNEA, afirmou que o projeto é “bastante destrutivo” e que não há autorizações disponíveis ao público. A BirdLife argumenta que áreas já urbanizadas seriam mais adequadas para revitalização, e que transformar uma ilha e um delta fluvial em uma cidade inviabiliza a coexistência com a natureza.
Na entrevista, Ivanka Trump enfatizou a escala do empreendimento: “Teremos hotéis, resorts, espaços de bem-estar, tudo isso — a escala é quase intimidadora”. Ela acrescentou que a ideia de “comunidade” está no centro do projeto e que é preciso compreender o país para agir “de uma forma bonita, delicada e significativa”.
Com informações de CNN Brasil.