O Ministério das Relações Exteriores (Itamaraty) iniciou uma operação emergencial para identificar fornecedores de fertilizantes em todo o mundo, atendendo a um pedido das associações do setor. A Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda) e o Sindicato Nacional das Indústrias de Matérias-Primas para Fertilizantes (Sinprifert) acionaram o MRE diante do risco de desabastecimento, conforme informações obtidas pela Folha.
A maior urgência está na obtenção de fertilizantes fosfatados ou de seus insumos básicos — enxofre e ácido sulfúrico —, essenciais para culturas como soja, milho, algodão, café e cana. A solução precisa ser encontrada até agosto, quando começa o plantio da safra 2026/2027.

Demandas emergenciais e prazos apertados
No dia 12 de abril, o Itamaraty enviou um pedido às representações diplomáticas brasileiras de dezenas de países, com alerta para o risco de desabastecimento e a busca de apoio diplomático para sensibilizar governos estrangeiros a autorizar exportações emergenciais. O ministério estabeleceu um prazo curto: as informações deveriam ser enviadas até esta sexta-feira (19).
As necessidades foram divididas em três grupos prioritários:
- Enxofre: o Brasil precisa de 250 mil toneladas adicionais por mês nos próximos meses para não paralisar a produção nacional de fertilizantes. O país importou 2,3 milhões de toneladas em 2025 e depende quase integralmente da compra externa. A escassez já provocou redução da produção e suspensão de operações em unidades de processamento de fosfatos.
- Ácido sulfúrico: o setor pede 60 mil toneladas mensais adicionais do produto, que depende do enxofre para ser fabricado.
- Fertilizantes fosfatados prontos: o agro busca 1,54 milhão de toneladas adicionais do produto acabado.
Entre os potenciais fornecedores identificados estão Estados Unidos, Canadá, Cazaquistão, Turcomenistão, Alemanha, Colômbia, Espanha, França, Japão, Polônia, Turquia e Venezuela para enxofre; Bélgica, Bulgária, Espanha, Finlândia, Chile e Peru para ácido sulfúrico; e Alemanha, Egito, Espanha, Índia, Israel, Omã, Países Baixos e Tunísia para fosfatados.
Aumento de preços e causas geopolíticas
O Itamaraty reuniu dados que mostram uma disparada histórica nos preços: o enxofre subiu 823% entre janeiro de 2024 e abril de 2026, enquanto o ácido sulfúrico teve alta de 305% no mesmo período.
Por trás da dificuldade de acesso estão o fechamento do Estreito de Hormuz e as restrições da China às exportações de ureia. Cerca de 15% das importações brasileiras de fertilizantes vêm da região do Oriente Médio afetada pela guerra. Irã, Catar, Arábia Saudita, Omã e Emirados Árabes Unidos responderam juntos por 36% das importações brasileiras de ureia em 2025.
A preocupação internacional com fertilizantes levou os Estados Unidos a reclassificar fosfato e potássio como minerais críticos, deixando de tratá-los apenas como commodities agrícolas.
Atuação diplomática e falta de resposta
O Itamaraty declarou à reportagem que "tem tratado do tema dos fertilizantes de forma prioritária, seja na agenda diplomática do ministro Mauro Vieira, seja nas demais autoridades do ministério, seja em contatos com o setor privado". A pasta afirmou que o tema constou de forma prioritária na recente agenda de visitas do chanceler, que tratou do assunto com autoridades de alto nível do Uzbequistão, do Cazaquistão e da China.
O ministério confirmou que "as áreas responsáveis por comércio deste ministério e as embaixadas do Brasil também estão engajadas em auxiliar o mapeamento de oportunidades no mercado global de fertilizantes". O Itamaraty mantém contato frequente com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) e a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), atuando como facilitador de contatos.
A Anda informou que não comentaria o assunto. A Folha questionou o Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa) e o Sinprifert, mas não obteve resposta até a publicação deste texto.