Após ataques dos Estados Unidos e de Israel, o Irã adotou medidas estratégicas baseadas no conceito de guerra assimétrica, evitando o confronto direto e explorando sua posição geográfica e armamentos de baixo custo. Uma das principais ações foi o bloqueio do Estreito de Ormuz, por onde passa 20% do petróleo mundial, medida que elevou a tensão internacional e impactou o mercado global.

Conceito de guerra assimétrica

O termo descreve conflitos em que há profunda disparidade de recursos e objetivos entre os lados. A metáfora clássica é a história bíblica de Davi e Golias: o mais fraco evita o combate para o qual o forte está preparado e explora vulnerabilidades específicas. “A maior parte das vitórias em qualquer guerra é a vitória sobre a narrativa”, explicou Rashmi Singh, professora de Relações Internacionais da PUC Minas. O conceito moderno foi formulado em 1975 pelo cientista político Andrew Mack no artigo “Por que grandes nações perdem pequenas guerras”.

Lições do Vietnã

Mack analisou a Guerra do Vietnã para mostrar como forças aparentemente mais fracas podem derrotar potências militares. Os vietnamitas, sem condições de vencer em confronto direto, construíram uma rede de túneis com centenas de quilômetros e atacaram por emboscadas. A “contradição do ocupante” surgiu: quanto mais tropas os EUA enviavam, mais alvos criavam; quanto mais concentravam, mais áreas ficavam desprotegidas. “Os Estados Unidos venceram praticamente todas as batalhas — mas perderam estrategicamente e politicamente”, afirmou Vitelio Brustolin, professor de Relações Internacionais da UFF. Um momento decisivo foi a Ofensiva do Tet, em 1968, que, militarmente fracassada, destruiu a narrativa de vitória americana ao ser transmitida ao vivo. Henry Kissinger resumiu: “o guerrilheiro vence se não perder; o exército convencional perde se não vencer”. Em 1973, os EUA assinaram um acordo de paz e se retiraram.

Independência dos EUA e guerrilha

Outro exemplo histórico é a Guerra de Independência dos Estados Unidos. As milícias coloniais, inferiores ao Exército Britânico, adotaram táticas não convencionais, agindo como “um enxame de vespas”, segundo um oficial britânico. O historiador Max Boot destacou que a Revolução Americana marcou uma mudança profunda: governos com instituições representativas passaram a ter dificuldade em manter guerras prolongadas sem apoio popular.

Estratégia atual do Irã

No conflito atual, o Irã aplica a mesma lógica. “A utilização do terreno nesse momento é o Estreito de Ormuz”, disse Brustolin. Pelo estreito passam cerca de 20% do petróleo global e um quarto do gás natural liquefeito. Com a escalada, o número de embarcações caiu de 138 por dia para apenas cinco ou seis — redução de 95%. O preço do petróleo Brent saltou de US$ 71 para mais de US$ 100, pressionando economias. Nos EUA, o Pew Research Center aponta que 69% dos americanos estão preocupados com a alta da gasolina e 52% acham que o país foi longe demais. Trump anunciou bloqueio naval aos portos iranianos.

No campo militar, a assimetria de custos é evidente. Um míssil Patriot custa até US$ 4 milhões, enquanto um drone Shahed iraniano custa de US$ 20 mil a 50 mil. Os drones são lançados em enxames; quando os mísseis Patriot se esgotam, o Irã utiliza armas mais potentes. Além disso, Teerã atua por meio de aliados regionais como Hezbollah e Houthis, ampliando a pressão sem confronto direto. A estrutura interna da Guarda Revolucionária Iraniana prevê múltiplos níveis de sucessão, garantindo continuidade. “O Irã se preparou para esse tipo de cenário durante 47 anos”, afirmou Brustolin. “Há grupos que continuam os ataques mesmo sem ordens superiores, e há grande capacidade de substituição dos postos de comando.”