O Irã anunciou neste sábado (20) o fechamento do Estreito de Ormuz, uma das rotas marítimas mais estratégicas do mundo para o transporte de petróleo e gás, como resposta aos ataques de Israel no Líbano. O governo iraniano classificou a ofensiva israelense como uma violação do memorando de entendimento assinado com os Estados Unidos para pôr fim à guerra no Oriente Médio.
No sul do Líbano, tropas israelenses enfrentaram combatentes do Hezbollah enquanto caças realizavam bombardeios, horas depois de os EUA anunciarem uma nova trégua na região. Os confrontos colocam em risco o acordo firmado entre o presidente americano, Donald Trump, e o iraniano, Masoud Pezeshkian, que previa um cessar-fogo em todas as frentes, incluindo o Líbano.

Fechamento do estreito
Citando um “descumprimento de contrato” por parte dos Estados Unidos e “a violação contínua e implacável do cessar-fogo no sul do Líbano pelo regime sionista”, o comando militar central do Irã declarou que “o Estreito de Ormuz será fechado à passagem de navios”. A Marinha dos Estados Unidos afirmou que se mantém “vigilante”. O estreito, vital para o mercado global de energia, havia sido bloqueado pelo Irã durante grande parte da guerra e reaberto no âmbito do memorando com os EUA. Nos últimos dias, o tráfego marítimo estava sendo retomado gradualmente.
Conflitos no Líbano
Na tarde de sexta-feira, um funcionário americano anunciou um cessar-fogo entre Israel e o Hezbollah. O embaixador israelense em Washington, Yechiel Leiter, afirmou que seu país respeitaria o acordo se o partido-milícia pró-iraniano também o fizesse. No entanto, poucas horas depois, o Exército israelense lançou novos ataques contra o Hezbollah, acusando o grupo de disparar “mais de 50 projéteis” contra suas tropas no sul do Líbano.

O Hezbollah, por sua vez, declarou que Israel tentou “uma infiltração em direção às colinas de Ali Taher”, um ponto estratégico com vista para a cidade de Nabatieh, durante o cessar-fogo, e que seus combatentes “os enfrentaram com as armas apropriadas”. A agência de notícias libanesa NNA reportou bombardeios em cerca de vinte localidades no sul do país. A defesa civil libanesa informou que 16 pessoas morreram apenas na região de Nabatieh, uma grande cidade do sul frequentemente alvo de ataques israelenses. Um jornalista da AFP, no lado israelense da fronteira, ouviu múltiplas explosões vindas do Líbano e viu colunas de fumaça perto do forte de Beaufort, conquistado por tropas israelenses no mês passado.
O Hezbollah arrastou o Líbano para o conflito ao abrir fogo contra Israel em março, em vingança pela morte do líder iraniano, no primeiro dia de ataques israelenses-americanos que desencadearam a guerra. Embora o cessar-fogo entre Irã e EUA, firmado no início de abril, tenha sido amplamente respeitado, o mesmo não ocorreu no Líbano, onde três acordos de trégua mal duraram algumas horas. Desde 2 de março, os bombardeios israelenses no Líbano já causaram 4.057 mortes, segundo balanço do Ministério da Saúde libanês divulgado neste sábado.
Negociações diplomáticas
A frente libanesa tem sido um dos principais obstáculos no diálogo entre Washington e Teerã. O memorando de entendimento assinado no início da semana prevê o fim das hostilidades em todas as frentes, a reabertura do Estreito de Ormuz e o início de um período de 60 dias de negociações para tratar de questões como o programa nuclear iraniano e a suspensão de sanções. Uma nova fase de negociações na Suíça estava prevista para sexta-feira, mas foi adiada por tempo indeterminado após Israel matar dezenas de pessoas no Líbano em bombardeios de represália.
O vice-presidente dos EUA, JD Vance, que representaria Washington na Suíça, cancelou a viagem, mas neste sábado afirmou que viajará “nos próximos dias” para manter diálogos de paz. Os negociadores americanos Jared Kushner e Steve Witkoff já estão no país cuidando de “aspectos técnicos” das conversas com Teerã. O Irã também enviou uma delegação à Suíça, conforme informou o porta-voz da Chancelaria, Esmaeil Baqaei, que alertou: se o acordo não for implementado “o mais rápido possível (…), todo o entendimento estará em risco”.
No domingo, estão previstas “conversas técnicas” entre representantes de Washington e Teerã, com mediação do Paquistão e do Catar. Neste sábado, diplomatas de diversos países se reuniram no complexo de Bürgenstock, perto de Lucerna, para reuniões preparatórias, segundo o governo suíço.