O fluxo de investimentos dos Estados Unidos em empresas brasileiras registrou queda de 29% em 2025, ano em que entraram em vigor as tarifas de 50% impostas pelo governo do presidente Donald Trump ao Brasil. Dados do Banco Central indicam que os americanos destinaram US$ 8,4 bilhões para adquirir participação no capital de companhias nacionais, contra US$ 11,9 bilhões em 2024.
O movimento ocorreu na contramão dos aportes totais de todos os países no Brasil, que cresceram 7,4% no período. Com isso, a participação dos EUA no fluxo investido em empresas brasileiras caiu de 29% em 2024 para 19% em 2025, o menor percentual desde 2018.
Para especialistas, as tensões comerciais geradas pelo tarifaço e a política protecionista "America First" (América primeiro) frearam os negócios dos americanos com empresas brasileiras no ano passado.
Queda concentrada em serviços
A redução ocorreu inteiramente no setor de serviços, que inclui comércio, serviços financeiros e prestação de serviços de tecnologia da informação. Nesse segmento, os investimentos americanos somaram US$ 5 bilhões em 2025, o menor valor desde 2020, com uma queda de 51,2% em relação ao ano anterior.
Segundo economistas, o ciclo de investimentos em serviços reage mais rapidamente a fatores externos, como a deterioração das relações comerciais entre EUA e Brasil. "De forma geral, os serviços são menos intensivos em ativos, e a capacidade de mudar fluxos de investimento é razoavelmente rápida", afirmou o economista Claudio Frischtak, da consultoria Inter.B. "As políticas econômicas do governo Trump têm afetado os fluxos de investimento direto de empresas americanas em países como o Brasil."
Os dados do BC mostram que serviços financeiros e comércio tiveram as maiores perdas, com quedas anuais de 71,8% e 48%, respectivamente.
Altas em agropecuária e indústria
Em contrapartida, nos setores de agropecuária e indústria extrativa e de indústria, onde as decisões de investimento são tomadas com maior antecedência, houve aumentos expressivos. Os investimentos na agropecuária e indústria extrativa cresceram 130,3%, para US$ 1,9 bilhão, e na indústria, 152,3%, para US$ 1,2 bilhão. Os aportes foram impulsionados pela extração de minerais metálicos e pelas indústrias química e farmacêutica.
Impacto das tarifas e legislação americana
A sobretaxa de 50% sobre produtos brasileiros foi anunciada por Trump em 9 de julho de 2025 e entrou em vigor em agosto. As tarifas foram derrubadas pela Suprema Corte americana em fevereiro de 2026, mas nesta semana os EUA concluíram duas investigações contra o Brasil e recomendaram novas sobretaxas.
Como consequência, as exportações brasileiras para os Estados Unidos caíram 16,6% no segundo semestre de 2025 em relação ao mesmo período de 2024, segundo o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic). De janeiro a maio de 2026, a queda foi de 16% na comparação anual.
Frischtak avalia que não é possível separar relações comerciais de investimentos. "Quando há restrições ao comércio, o nível de incerteza das relações econômicas é muito grande, e causa danos aos investimentos."
Carla Beni, economista, professora da FGV e consultora do Corecon-SP, compartilha da mesma opinião. "É importante lembrar que 2025 foi o ano do tarifaço. Houve muita instabilidade internacional provocada pelo governo americano, que adotou uma política industrial que, se você quiser produzir nos EUA, vai ter benefícios e menos tarifas."
Beni aponta ainda outro fator: "Alguns setores, como computação e software, tiveram um certo esgotamento de investimentos globais após o pico dos anos anteriores."
Sancionada por Trump em julho de 2025, a lei One Big Beautiful Bill permite a depreciação acelerada de ativos adquiridos nos EUA entre 2025 e 2029, além de dedução integral de gastos com pesquisa e desenvolvimento no ano em que ocorrem. "A lógica é manter os recursos nos Estados Unidos, desincentivando investimentos em outros países", disse Frischtak.
Ele ressalta que investimentos externos em áreas sensíveis para os EUA, como minerais críticos, devem se manter fortes. Em 2025, os investimentos americanos em extração de minerais metálicos cresceram 174%, para US$ 1,5 bilhão. "Há casos onde, por motivos de segurança nacional, os americanos estimulam investimentos", afirmou.
Frischtak acrescentou que os investimentos em projetos greenfield (do zero) estão crescendo no Brasil desde o ano passado. "Os números deste ano e principalmente os do ano que vem vão mostrar com maior clareza o impacto da política de Trump nos fluxos de investimento direto."
Com informações de Folha — Mercado.