A inteligência artificial generativa está se consolidando como elemento central na estratégia de negócios dos escritórios de advocacia, deixando para trás a fase de testes e experimentos. De acordo com uma pesquisa da Thomson Reuters, empresa especializada em infraestrutura legal, 45% dos profissionais jurídicos brasileiros já utilizam ferramentas de IA generativa, enquanto outros 31% planejam adotá-las nos próximos meses.
O levantamento também aponta uma forte pressão dos clientes: 92% dos departamentos jurídicos corporativos e 87% das áreas tributárias esperam que escritórios e consultorias empreguem IA para aprimorar a prestação de serviços. O cenário indica que a advocacia latino-americana ingressa em uma nova etapa de transformação digital, com foco em resultados concretos como redução de custos, ganho de produtividade e diferenciação competitiva.
De tendência a rotina
Rodrigo Hermida, vice-presidente para a América Latina da Thomson Reuters, afirma que a inteligência artificial "deixou de ser tendência e virou rotina". A pesquisa mostra que 39% dos usuários recorrem a ferramentas de IA generativa várias vezes ao dia, e 31% fazem uso diário. "A pergunta deixou de ser se a IA será usada e passou a ser como ela pode transformar a forma de trabalhar, atender clientes e gerar valor", acrescenta.
Segundo o executivo, praticamente um em cada dois escritórios da região já utiliza algum tipo de ferramenta de IA no dia a dia, e a expectativa é de avanço rápido à medida que os clientes exijam não apenas qualidade técnica, mas também eficiência operacional. Hermida compara a mudança à provocada pela digitalização dos processos e destaca que nove em cada dez profissionais acreditam que a IA terá um papel disruptivo na profissão.
Além do "Google avançado"
O uso inicial da IA no setor jurídico se assemelhava a um mecanismo de busca sofisticado, voltado para revisão de documentos, pesquisas e jurisprudência. Agora, a tecnologia começa a integrar o fluxo de trabalho. Os principais usos identificados pela pesquisa são: sumarização de documentos (77%), revisão de conteúdo (71%) e pesquisa jurídica (68%).
Hermida explica que sistemas mais avançados já conseguem agrupar processos semelhantes, identificar padrões jurisprudenciais, distribuir tarefas entre equipes e acompanhar prazos processuais automaticamente. "Não é mais apenas uma ferramenta que responde perguntas. A IA começa a executar tarefas dentro do fluxo de trabalho efetivamente", disse.
Ganhos de produtividade e mensuração de resultados
O estudo da Thomson Reuters estima que profissionais que utilizam IA podem economizar até 12 horas por semana, o equivalente a cerca de 240 horas por ano. Apesar do potencial econômico, a mensuração de resultados ainda é incipiente: apenas 23% das organizações latino-americanas monitoram formalmente o retorno sobre investimento (ROI) da IA, enquanto 57% não fazem esse acompanhamento e 20% não sabem informar se a empresa mede os resultados.
Entre as organizações que acompanham indicadores, o foco está na eficiência interna: economia de custos (74%), utilização pelos colaboradores (41%), satisfação dos funcionários (35%) e geração de receita projetada (35%). Indicadores ligados ao cliente, como satisfação (26%) e geração de novos negócios (29%), aparecem com menor frequência, o que, segundo Hermida, reflete o estágio de maturidade da adoção.
Preocupações éticas e governança
O avanço da IA também traz desafios éticos. Recentemente, a Justiça do Trabalho multou em R$ 84 mil duas advogadas de Parauapebas (PA) por tentativa de manipulação de um sistema de IA do tribunal. As profissionais inseriram um trecho oculto em um documento — em fonte branca sobre fundo branco — com instruções para influenciar o comportamento da ferramenta, prática conhecida como injeção de comando (prompt injection).
Para Hermida, a confiança tornou-se tão crucial quanto a capacidade tecnológica. "Em profissões altamente reguladas, quase bom não é suficiente. É preciso saber de onde vem a informação, quais bases foram utilizadas e quais mecanismos de segurança existem para evitar erros ou manipulações." Essa preocupação impulsiona a busca por soluções especializadas, treinadas em bases jurídicas confiáveis e com garantias de sigilo e rastreabilidade.
Segurança e precisão como diferenciais
A advogada Ellen Carolina Silva, sócia do escritório Luchesi Advogados, relata que a escolha pela plataforma jurídica da Thomson Reuters se deu pela garantia de que os dados não são compartilhados com o ambiente externo, oferecendo proteção compatível com a natureza das informações jurídicas. "Ela tem uma acurácia muito elevada na leitura e localização de informações dentro dos documentos", acrescenta.
Mercado em ebulição
A disputa pela transformação digital do setor jurídico atrai investimentos. A startup brasileira Enter, fundada pelo advogado Mateus Costa-Ribeiro, tornou-se o primeiro unicórnio jurídico ao atingir avaliação de US$ 1,2 bilhão após rodada de US$ 100 milhões liderada pelo Founders Fund, com participação da Sequoia Capital e Ribbit Capital.
Apesar da competição, Hermida ressalta que a tecnologia não substituirá os profissionais. "A IA é um apoio para que advogados, tributaristas e contadores consigam fazer mais, em menos tempo e com mais qualidade. Os profissionais que aprenderem a trabalhar junto com essas ferramentas tendem a sair na frente."
Com informações de InfoMoney.