Uma operação conjunta entre o Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio) e a Polícia Federal retirou 69 ararinhas-azuis de um criadouro particular em Curaçá, no sertão baiano, na manhã desta quarta-feira (27). As aves foram transferidas para um centro de quarentena na Universidade Federal do Vale do São Francisco (Univasf), em Petrolina (PE), a cerca de 100 km de distância. O objetivo é evitar que os animais sejam contaminados pelo circovírus, causador da doença do bico e das penas dos psitacídeos, que já atingiu ao menos 34 aves no local.
A ação foi planejada e liderada pelo ICMBio, com apoio do Instituto do Meio Ambiente e Recursos Hídricos da Bahia (Inema) e do Centro de Conservação e Manejo da Fauna da Caatinga (Cemafauna), da Univasf. A Polícia Federal cumpriu mandados de busca e apreensão autorizados pela Justiça Federal em Juazeiro (BA) no Criadouro Ararinha-azul, localizado na fazenda Concórdia. A operação, batizada de Blue Hope (esperança azul), teve sua segunda fase deflagrada quase seis meses após a primeira, em dezembro do ano passado, quando a PF investigou um surto de circovírus no local.
Descumprimento de protocolos
Vistorias técnicas realizadas em 2024 pelo ICMBio, Inema e PF constataram que as instalações do criadouro em Curaçá não cumpriam os protocolos de biossegurança necessários para impedir a disseminação do vírus, como limpeza e desinfecção diária de instalações e utensílios e uso de equipamentos de proteção individual pelos funcionários. Por esse motivo, o criadouro foi notificado e, após continuar descumprindo as regras, foi multado em R$ 1,8 milhão — R$ 1,3 milhão para a empresa administradora e R$ 500 mil para o proprietário, Ugo Vercillo.
No momento da operação, apenas funcionários estavam no local. O dono, Ugo Vercillo, não estava presente. O responsável na ausência dele, o australiano Tyson James Chapman, não quis dar declarações, limitando-se a dizer que avisou Vercillo sobre a operação e foi orientado a cumprir o mandado. Procurado, Vercillo não respondeu até a publicação desta reportagem.
Posição do criadouro
Em nota, o Criadouro Ararinha-azul afirmou ter recebido a operação com “perplexidade”. A empresa disse que informou aos órgãos competentes, em 31 de março, que os exames mais recentes nas aves deram negativo para circovírus e que “todo o plantel apresentava resultados negativos” — informação rebatida pelo ICMBio. A nota acrescenta que nenhuma ave morreu desde o início das medidas de contenção do vírus e que foram adotados “protocolos de biossegurança, manejo e bem-estar animal, contando com estrutura adequada e equipe técnica especializada”. O criadouro reafirmou seu compromisso com a biossegurança e a preservação da espécie, colocando-se à disposição para colaborar com as autoridades.
Detalhes da operação
A equipe, comandada pela bióloga Cláudia Sacramento, chefe da Coordenação de Emergências Climáticas e Epizootias do ICMBio, contou com 31 pessoas, incluindo veterinários, biólogos e tratadores, além de três peritos criminais da PF especializados na área. A operação começou às 6h, precedida por viaturas da PF.
Além das 69 ararinhas-azuis, foram transferidas duas maracanãs (araras de plumagem verde) que participam dos programas de reintrodução da ararinha-azul, ensinando às aves de cativeiro os hábitos da caatinga. No criadouro de Curaçá permaneceram 34 ararinhas-azuis já comprovadamente contaminadas pelo circovírus. As aves transferidas serão testadas nas próximas semanas; no final do ano passado não tinham o vírus, mas não há certeza de que continuem livres dele. As 69 ararinhas e as duas maracanãs foram alojadas em um espaço de quarentena do Cemafauna adaptado para recebê-las, no campus da Univasf em Petrolina.
A ideia é que o programa de reintrodução na natureza seja retomado somente com aves livres do vírus, que causa uma enfermidade crônica e sem cura, podendo matar os animais. Os principais sintomas são embranquecimento das penas e deformidades no bico. O vírus não é perigoso para humanos ou aves de produção, mas é extremamente contagioso entre psitacídeos.
Histórico da espécie e do criadouro
Endêmica da caatinga brasileira, a ararinha-azul (Cyanopsitta spixii) é uma das aves mais raras do mundo. Foi considerada extinta na natureza em 2000, e desde então iniciativas tentam reintroduzi-la em seu habitat. Ugo Vercillo, ex-servidor do ICMBio, é o responsável pelo viveiro particular e pela fazenda Concórdia. Ele é ligado à ONG alemã ACTP (Associação para a Conservação de Papagaios Ameaçados), que chegou a deter 90% de todas as ararinhas-azuis no mundo.
Em 2016, o ICMBio iniciou uma parceria com a ACTP para reprodução e reintrodução da espécie, reforçada por acordo de cooperação técnica em 2019. Ao tomar conhecimento de que a ONG alemã vendeu espécimes de ararinha-azul a criadores privados sem seu consentimento, o órgão anunciou, em 2024, que não renovaria o acordo. Em junho do mesmo ano, uma investigação da Folha em conjunto com o jornal alemão Süddeutsche Zeitung revelou que a ACTP fez transações milionárias com ararinhas-azuis; a ONG negou irregularidade. Após a saída da ACTP, Ugo Vercillo assumiu as atividades do criadouro, que mudou de nome para BlueSky Caatinga e depois para Criadouro Ararinha-azul.
Segundo o ICMBio, iniciativas como as da ACTP ou da empresa sucessora devem seguir os instrumentos oficiais de conservação, como o Plano de Ação Nacional para a Conservação da Ararinha-azul, coordenados pelo instituto.
Com informações de Folha — Ambiente.