A ibogaína, substância alcaloide psicodélica extraída das raízes do arbusto iboga (Tabernanthe iboga), nativo das florestas tropicais da África Central, é estudada desde a década de 1960 por possíveis propriedades terapêuticas no tratamento de dependência química, estresse pós-traumático e depressão. No final de abril, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, assinou uma ordem que libera financiamento para pesquisas sobre a ibogaína e acelera a análise regulatória para ensaios clínicos, representando a maior abertura do país aos psicodélicos desde a década de 1970.
No Brasil, o psiquiatra Marcelo Feijó de Mello, professor da graduação em Medicina do Ensino Einstein, afirma que o país tem tradição em estudos com psicodélicos e já conta com produção nacional relevante sobre a ibogaína. No entanto, ele ressalta que as evidências de eficácia terapêutica ainda são limitadas a estudos observacionais e relatos de caso. Para comprovar a eficácia, seriam necessários ensaios clínicos randomizados cegos, mas os efeitos psicodélicos são tão evidentes que tornam difícil ocultar quem recebeu a substância ou o placebo. Segundo Feijó, seria preciso um placebo que simule os sintomas psicodélicos sem produzir o suposto efeito terapêutico, o que ainda é um desafio.
Por isso, a ibogaína e outros psicodélicos — como ayahuasca, psilocibina, DMT e LSD — são considerados experimentais. O psiquiatra explica que, na prática clínica, não é possível prescrever psicodélicos; o uso só ocorre em protocolos de pesquisa aprovados por comitê de ética. No Brasil, a Anvisa autorizou alguns projetos, como um estudo de 2017 publicado no Journal of Psychedelic Studies, que testou a ibogaína em 22 pacientes com dependência química, associada à terapia cognitivo-comportamental. Os participantes relataram efeitos físicos intensos (náuseas, tontura, exaustão), visões complexas, ruídos auditivos e instabilidade emocional, com a substância sendo comparada a uma “reorganização do cérebro”.
A psiquiatra Érica Carneiro Pessoa, pesquisadora da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), que falou sobre o tema no 1º Congresso Internacional Einstein de Psiquiatria, Saúde Mental e Bem-Estar, em abril, brincou que há mais perguntas sem respostas do que perguntas respondidas sobre a ibogaína.
“Reset neurológico” e riscos cardíacos
Em termos técnicos, a ibogaína é um psicodélico não clássico que atinge cerca de 12 receptores cerebrais. Uma revisão publicada em fevereiro na revista Molecules, que analisou estudos de 1994 a 2018, sugere que a substância causa um “reset neurobiológico”, reduzindo a hiperatividade do sistema de recompensa e possibilitando romper o ciclo da adição por opioides, cocaína e álcool. Na prática, observa-se melhora no humor, atenuação dos sintomas de abstinência e interrupção da fissura, com resultados superiores aos tratamentos convencionais.
No entanto, as pesquisas destacam riscos, especialmente cardíacos: a ibogaína pode provocar arritmias graves e prolongar o intervalo QT, aumentando o risco de morte súbita.
Potencial de pesquisa no Brasil
Apesar das limitações, a expertise de cientistas brasileiros pode tornar a ibogaína um tratamento viável no futuro. Érica Pessoa afirma que o Brasil tem conhecimento técnico, profissionais capacitados, universidades interessadas e o Sistema Único de Saúde, mas falta investimento. Com mais financiamento, seria possível ampliar as pesquisas, que passam por etapas como estudos com animais, fase 1 com voluntários saudáveis e fases 2 e 3 com mais participantes.
Marcelo Feijó pondera que há um futuro promissor, mas a ibogaína não é uma panaceia: para alguns pacientes pode ajudar bastante; para outros, não será adequada.
Com informações de Super Interessante.