O avanço da inteligência artificial generativa tem transformado o mercado de livros independentes, com aumento significativo no volume de novos títulos, prazos de lançamento mais curtos e custos de produção reduzidos. Editores e autores questionam a qualidade das obras resultantes desse processo.

No catálogo do Kindle Direct Publishing, plataforma de autopublicação da Amazon, é possível encontrar capas com características visuais típicas de imagens geradas por IA. Perfis de autores acumulam mais de 500 obras publicadas, mantendo o ritmo de um lançamento a cada dois dias.

Em 2023, a Amazon passou a exigir que autores declarem se usaram IA para gerar suas obras, mesmo após revisão humana. A empresa limita a criação simultânea a dez títulos por formato de livro por semana para cada autor. Em nota, a Amazon afirma aplicar medidas para prevenir, detectar e remover conteúdo que viole suas diretrizes, independentemente de ser gerado por IA. Apesar das restrições, catálogos ainda contêm obras automatizadas sem identificação visual clara, o que incomoda editoras tradicionais.

Na França, em abril de 2024, editores acionaram órgãos de repressão a fraudes contra a Amazon, acusando-a de “parasitismo e indução do consumidor ao erro” ao vender livros criados com auxílio de IA. Procurada, a Amazon informou que suas políticas regulam quais livros podem ser listados e que remove os que não estão em conformidade. “Nossos processos e diretrizes seguirão evoluindo à medida que a tecnologia e a indústria editorial evoluem”, afirmou a empresa, que também disponibiliza canais para denúncias de materiais inadequados.

O Sindicato Nacional das Editoras da França classificou a venda massiva de obras por autores e editoras fictícias como “fraude agravada contra o consumidor”. Outras organizações europeias, como a Sociedade dos Homens de Letras, defendem que essas publicações não sejam consideradas livros, mas sim “produtos de máquina”, para evitar que se beneficiem de incentivos fiscais do setor.

Em contrapartida, James Daunt, CEO da Barnes & Noble, maior rede de livrarias dos Estados Unidos, disse à NBC News que aceita vender livros escritos por IA desde que tenham qualidade e atendam ao desejo do leitor.

A escritora polonesa Olga Tokarczuk, vencedora do Prêmio Nobel de Literatura em 2018, afirmou em maio que incorporou a IA ao seu processo criativo, usando-a para “embelezar ideias” e agilizar pesquisas durante a escrita do próximo romance, mas esclareceu que não utiliza a ferramenta para redigir o texto final.

Em 2023, a Câmara Brasileira do Livro, organizadora do prêmio Jabuti, desclassificou a obra “Frankenstein” da disputa de melhor ilustração após a revelação de que o designer Vicente Pessôa usara ferramentas de IA. Três anos depois, Pessôa fundou a Barca, aceleradora de projetos culturais em Minas Gerais, que utiliza IA como sistema operacional da empresa. “A gente usa no marketing, nas ilustrações, nas capas, no processo de revisão e no processo de edição”, disse Pessôa, que assina 12 provedores de IA para gerenciar o fluxo de trabalho. O selo Pessôa alcançou 3.000 cópias por mês e está perto de reunir 4.000 assinantes. Para ele, as restrições à IA no meio literário partem dos profissionais do mercado, não dos leitores.

O empresário Roberto Saad, fundador da UIClap, plataforma de publicação independente com impressão sob demanda, afirma que o total de novas obras lançadas por mês saltou de 2.000 para 7.000 no último ano, um crescimento de 250% impulsionado pela IA.

Jéssica Laís, especialista em estratégia de produtos digitais, defende o uso da IA para criar infoprodutos, como ebooks, cursos e apostilas. Ela ensina técnicas de escrita de roteiros e textos persuasivos e comercializa sua própria ferramenta de IA configurada como redatora automática de campanhas. Com apoio de softwares, Jéssica relata ter criado um livro infantil completo em apenas dois dias.

A velocidade, porém, impacta a qualidade. Flávia Portela, dona da editora Lacre, revela que 70% dos originais recebidos apresentam sinais evidentes de uso de IA e são descartados, a maioria do gênero erótico. Segundo ela, é possível detectar a tecnologia pela repetição de enredos padronizados e personagens sem profundidade psicológica. Portela também precisa fiscalizar prestadores de serviço terceirizados, tendo flagrado designers que enviaram capas com estética artificial e uma revisora que usou chatbot, deixando passar erros ortográficos.

O avanço da IA gera resistência entre escritores como Ewandro Pallottini, vencedor do Prêmio Ecos da Literatura em 2025. Ele teme a banalização do ofício: “Você passa anos lapidando escrita, voz, estilo e, de repente, surge uma ferramenta que cospe um texto ok em segundos.”

Rodrigo Rechmann, especialista em IA e marketing digital, sugere limites éticos. “Não vendo ebooks no nicho de saúde, porque as inteligências artificiais alucinam”, diz. Essa preocupação é compartilhada pelo presidente do Sindicato Nacional dos Editores de Livros, Dante Cid, que aponta riscos em obras técnicas de medicina com dados falsos.

Outros autores usam a tecnologia para promover livros com redução de custos, como os “book trailers”, vídeos de até um minuto que contam a sinopse e atraem leitores via redes sociais. A escritora baiana Mima Cobaltini lançou “Entre o Mar e as Estrelas” há um ano e, após a veiculação dos vídeos, viu o número de páginas lidas diariamente no Kindle Unlimited saltar de 1.500 para mais de 5.000. Ela investiu cerca de R$ 250 em cada book trailer.

Em maio, a Câmara Brasileira do Livro lançou um manual de boas práticas no uso da IA para editoras brasileiras. “A IA deve ser compreendida como uma ferramenta de apoio aos processos editoriais, jamais como substituta da criação humana”, disse a presidente Sevani Matos. O documento reforça que o trabalho humano deve vir em primeiro lugar, pois os softwares combinam padrões existentes sem originalidade. O manual alerta ainda para o risco de “invasão cultural”, já que as ferramentas imitam modos de pensar e preconceitos estrangeiros, sem considerar traços da identidade brasileira. Matos afirma que a ausência de regulamentação clara da IA no país gera insegurança jurídica e defende o avanço regulatório para proteger direitos autorais e garantir justa remuneração aos titulares.

Com informações de Folha — Tec.