O neurocientista Álvaro Machado Dias, professor livre-docente da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), sócio do Instituto Locomotiva e da WeMind e colunista da Folha, publicou artigo em que analisa o papel da inteligência artificial na cultura contemporânea. Segundo ele, a metáfora do computador domina a época: do cérebro ao universo, tudo é visto como computador, e a cultura não escapa dessa visão.

Para Dias, os modelos de linguagem (LLMs) funcionam como um novo sistema operacional da realidade social, enquanto as respostas aos prompts seriam a memória RAM, que perde continuidade. As interfaces se multiplicam — telas, voz, ondas cerebrais — e o corpo já é convertido em dado. As saídas seguem para agentes executores e para os humanos, que carregam o cérebro como tábua de registro.

O autor aponta que a posição confortável nesse mundo dominado pela IA é a passividade diante dos registros. Não é mais necessário pesquisar fontes diversas ou sustentar a demora de uma dúvida. O conhecimento surge formatado para consumo após um pedido rápido, e, com autoengano, é fácil orgulhar-se de uma ideia forjada pela máquina. Além disso, o valor social da erudição perde espaço, como se formar repertório próprio fosse algo ultrapassado.

Dias destaca uma diferença fundamental entre escrever por dentro desse sistema operacional e ser escrito pelo conhecimento embarcado nele. No primeiro caso, trata-se de inscrever tendências, puxar combinações e produzir desvios; no segundo, de ser atravessado pelo repertório médio que a máquina devolve com aparência de pensamento próprio. Essa separação se percebe nos raciocínios e nas formas de expressão que, ao longo dos anos, favorecem destinos muito diferentes.

O neurocientista compara os LLMs aos carboidratos do nosso tempo: uma explosão de energia que, quando vira dieta inteira, termina em diabetes. Para quem começa agora, no jornalismo ou em outra área intelectualizada, a armadilha está posta. A IA encurta caminhos e refina textos, mas há um ponto em que o atalho deixa de levar alguém a algum lugar e passa a ocupar o lugar do caminho. Esse seria o lado perverso de se firmar como processador central da cultura.

No entanto, Dias ressalta que a velha cultura também repete seus próprios automatismos, e para cada uso fértil da tecnologia cognitiva surge uma procissão de críticas semelhantes. Para ele, as oportunidades para quem sai da inércia e produz desvios são maiores do que nunca.

O artigo integra o projeto final da 70ª turma do Programa de Treinamento em Jornalismo Diário da Folha, que discute os riscos e as oportunidades com o avanço da IA.

Com informações de Folha — Tec.