O humorista português Nuno Markl, membro do coletivo Gato Fedorento, publicou um artigo na Folha de S.Paulo criticando a proposta do escritor José Eduardo Agualusa de renomear a língua portuguesa para "língua geral". No texto, Markl argumenta que a mudança de nome não resolve as questões históricas associadas ao idioma.
Markl inicia o artigo com uma anedota sobre o imperador Sigismundo, que errou o gênero de uma palavra e tentou impor a correção, ao que um monge respondeu: "Caesar non supra grammaticos" (o imperador não está acima dos gramáticos). O humorista usa essa história para ilustrar que ninguém manda na gramática, nem mesmo um imperador.
Agualusa propôs que, por ter evoluído em contato com línguas como o árabe, o guarani e o kimbundo, o português deveria ser chamado de "língua geral". Markl rebate que esse processo evolutivo é comum a todas as línguas vivas, citando o inglês nos Estados Unidos, o espanhol na Argentina e o francês no Canadá, que não mudam de nome. "De acordo com os critérios de Agualusa, o mundo inteiro falaria língua geral", escreve.
O humorista também questiona a afirmação de Agualusa de que o português é um "idioma colonial, de opressão, de exploração, de domínio". Markl argumenta que "se tudo isso manchou a língua, mudar-lhe o nome não resolve muito. Trocar o rótulo da garrafa não melhora a qualidade do vinho."
Markl conclui que a proposta de Agualusa sofre do "moderno vício da literalidade", lembrando que a palavra "portuguesa" em "língua portuguesa" não significa posse exclusiva de Portugal, assim como "pastor alemão" não indica propriedade da Alemanha. "Não vale a pena passar a chamar-lhe cão geral", ironiza.
Com informações de Folha — Ilustrada.