O projeto de uma hidrovia no Rio Tapajós, no Pará, pode perturbar o sofisticado sistema de comunicação da tartaruga-da-amazônia (Podocnemis expansa), espécie classificada como ameaçada de extinção. No segundo local de reprodução mais importante do animal, pesquisadores temem que o ruído das embarcações sufoque os sons emitidos pelas fêmeas para orientar os filhotes dentro da água.
Comunicação essencial para a espécie
De acordo com a pesquisadora Camila Rudge Ferrara, da Wildlife Conservation Society (WCS) Brasil, a tartaruga-da-amazônia está entre os quelônios mais sociáveis do mundo. "Elas migram em grupo, desovam em grupo, nascem em grupo", afirmou. Camila foi a primeira a comprovar as capacidades de comunicação desses animais, que emitem sons que vão desde o chamado para a desova até o comando para a migração.

Os filhotes começam a se comunicar ainda dentro dos ovos, cerca de 36 horas antes da eclosão, para sincronizar o nascimento e facilitar a escavação do ninho, que pode ter quase um metro de profundidade. Já na água, as fêmeas adultas utilizam vocalizações específicas para guiar as crias até as áreas de alimentação.
Impacto do ruído da hidrovia
A hidrovia é peça central do plano do governo federal de intensificar a exportação de soja e milho pelo chamado Arco Norte. O projeto prevê a dragagem do leito do rio e a detonação de rochas para expandir o trecho navegável dos atuais 345 km para 1.789 km. Com isso, cerca de 30 milhões de toneladas de carga por ano circulariam em comboios de barcaças de até 205 metros de comprimento.

"O som da dragagem e das embarcações vai interferir na comunicação das tartarugas", alertou Camila. "A alta frequência embaixo da água deve atrapalhar a migração destes animais." A pesquisadora ressaltou que ainda são necessários estudos mais aprofundados sobre o tema.
Tabuleiro do Monte Cristo: berçário ameaçado
O Rio Tapajós abriga o Tabuleiro do Monte Cristo, uma ilha arenosa a 43 km de Itaituba, onde milhares de fêmeas se reúnem anualmente para desovar. Em 2025, o Ibama estimou que 19.447 fêmeas nidificaram no local, cada uma depositando entre 100 e 150 ovos. O número é resultado de cinco décadas de esforços de conservação: em 1979, apenas 327 fêmeas foram registradas.

Segundo o analista ambiental Roberto Lacava, coordenador do Programa Quelônios da Amazônia (PQA) no Pará, a espécie é muito seletiva na escolha do local do ninho e demonstra fidelidade ao Tabuleiro. "O indivíduo que vai desovar no Tabuleiro do Monte Cristo volta no ano seguinte para desovar lá de novo", explicou.
Dragagem emergencial e planos maiores
Em março de 2025, dragas começaram a revolver o leito do rio próximo ao Tabuleiro por determinação do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). A Secretaria do Meio Ambiente do Pará autorizou a operação como emergencial devido a uma situação crítica de estiagem. Contudo, Roberto Lacava criticou a falta de aviso prévio: "Se uma obra dessa magnitude vai ser feita na região, a gente precisa ser avisado. A gente precisa poder opinar sobre qual o melhor momento para se fazer essas intervenções".
O governo federal tem planos mais amplos para o Tapajós. A hidrovia integra o corredor logístico do Arco Norte, que inclui a BR-163, a polêmica ferrovia Ferrogrão e a via navegável pelos rios Araguaia e Tocantins. Em 2015, um estudo do DNIT projetou a expansão da hidrovia, mas o Ministério de Portos e Aeroportos informou que o traçado está sendo revisto e que "as avaliações em curso consideram um recorte distinto da hidrovia, ainda em definição técnica".
Precedente no Rio Trombetas
Roberto Lacava traçou um paralelo com o que ocorreu no Rio Trombetas, outro importante sítio de desova. Após a instalação de um porto para transporte de bauxita na década de 1980, o número de fêmeas nidificantes caiu de 7 mil para menos de 700. "Apesar de não ser confirmado o real motivo do declínio, existe uma grande possibilidade de que o tráfego de grandes embarcações esteja relacionado", escreveu em nota técnica ao Ministério Público Federal do Pará (MPF-PA).
Outras ameaças e resistência
Especialistas temem que os projetos de infraestrutura agravem problemas existentes na bacia, como desmatamento, grilagem, garimpo ilegal e contaminação por mercúrio. A Ferrogrão enfrenta oposição de grupos indígenas como os Kayapó e os Munduruku, pois o traçado corta unidades de conservação e territórios tradicionais.
Em fevereiro de 2026, após protestos de indígenas de mais de 20 etnias que ocuparam o terminal da Cargill em Santarém, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recuou e prometeu suspender o projeto até que todas as comunidades afetadas sejam consultadas. O Ministério de Portos e Aeroportos afirmou que os estudos estão em fase de avaliação técnica e ambiental e serão submetidos à consulta pública quando concluídos.
Espécies além das tartarugas
Além da tartaruga-da-amazônia, o Tabuleiro do Monte Cristo recebe desovas do tracajá (Podocnemis unifilis) e do pitiú (Podocnemis sextuberculata), a tartaruga mais ameaçada da região. O ICMBio alerta que muitas outras espécies seriam afetadas, especialmente nas ilhas do Meio e Grande, áreas de reprodução dos botos tucuxi e rosa. A dragagem e o tráfego de navios podem causar "injúria auditiva, mascaramento acústico, mudança comportamental, indução de estresse, redução da eficiência do forrageio e aumento da suscetibilidade a doenças".
A região também é considerada de vital importância para o peixe-boi-da-amazônia, que utiliza as ilhas e canais para alimentação e proteção. Estudos do DNIT indicam que sete unidades de conservação e três terras indígenas seriam impactadas, e o MPF-PA aponta que outras 50 aldeias na Floresta Nacional do Tapajós e na Reserva Extrativista Tapajós-Arapiuns também sofreriam consequências.
Conservação e futuro incerto
Encontrada em toda a Bacia Amazônica, a tartaruga-da-amazônia pode viver mais de 40 anos, com alguns indivíduos ultrapassando os 100 anos. No Brasil, que concentra 60% da população da espécie, o declínio histórico foi acentuado pela caça para extração de óleo e pelo tráfico de animais para consumo nos centros urbanos. O Programa Quelônios da Amazônia, do Ibama, monitora os sítios reprodutivos e contribuiu para um aumento de 95% no número de filhotes nascidos nas 11 principais áreas entre 1979 e 2022.
Em 2025, mais de 1 milhão de tartarugas nasceram no Tabuleiro do Monte Cristo. Francisco de Sousa, morador da comunidade de Monte Cristo e colaborador do Ibama, descreve a eclosão como uma "colheita" do trabalho anual. "É satisfatório porque a gente trabalha o ano inteiro e, quando chega no final do ano, a gente se sente abençoado por aquela colheita", disse. Contudo, o avanço da hidrovia lança incertezas sobre o futuro desse espetáculo natural e sobre a sobrevivência da espécie.
Com informações de Mongabay Brasil.