Enquanto Elon Musk, CEO da SpaceX, jantava com o presidente Donald Trump na Casa Branca, testemunhava contra Sam Altman em um julgamento e acompanhava Trump à China, Gwynne Shotwell, presidente e diretora de operações da SpaceX, seguia uma agenda diferente nos últimos seis meses. Ela discursou em uma feira de telecomunicações em Barcelona para promover o Starlink, interagiu com políticos na Índia e apareceu na Casa Branca com executivos de tecnologia para garantir que seus data centers não elevariam os preços de energia para os norte-americanos.

Por 24 anos, Shotwell desempenhou o papel de adulta responsável ao lado de Musk na SpaceX. Enquanto ele assessorava Trump e administrava outras empresas, como a Tesla, ela focava em desenvolver os negócios da SpaceX, que cresceu para se tornar uma empresa avaliada em mais de US$ 1 trilhão (R$ 5,15 trilhões). Esse trabalho e sua lealdade absoluta a Musk a tornaram uma das executivas mais poderosas do mundo, agora sob os holofotes enquanto a SpaceX se prepara para uma IPO de grande repercussão neste mês.

Diferentemente de Musk, a executiva de 62 anos mantém um perfil discreto, raramente posta nas redes sociais e tem aparições públicas ocasionais. Sua característica mais notável é a capacidade de persistir ao lado de Musk por décadas, mesmo enquanto ele descartava executivos em outras empresas. Dois ex-executivos da SpaceX, sob condição de anonimato, a descreveram como uma "sobrevivente".

Em uma entrevista de 2018 no TED, Shotwell comentou como lidava com Musk: nunca lhe dizia imediatamente que suas ambições eram impossíveis e "encontrava maneiras de fazer aquilo acontecer". "Eu amo trabalhar para Elon", declarou, acrescentando: "Sempre senti que meu trabalho era pegar essas ideias e transformá-las em metas da empresa — torná-las uma realidade".

Shotwell foi generosamente recompensada, acumulando ações suficientes para se tornar bilionária. No ano passado, foi a executiva mais bem paga da empresa, com remuneração total de mais de US$ 85 milhões (R$ 438,22 milhões), segundo registros da SpaceX.

"Elon representa a inovação brilhante e a visão, e Gwynne é o motor que mantém tudo funcionando dentro do cronograma", afirmou Peter Diamandis, investidor da SpaceX e fundador da XPrize Foundation. "É uma parceria incrível." Musk, Shotwell e um porta-voz da SpaceX não responderam aos pedidos de comentário.

Engenheira mecânica com mestrado em matemática aplicada pela Northwestern University, Shotwell trabalhou na Chrysler antes de se mudar para a Califórnia no final dos anos 1980 para atuar em uma organização sem fins lucrativos de pesquisa espacial. Conheceu Musk em 2002, após a venda do PayPal ao eBay. Em seu primeiro encontro, sugeriu que ele contratasse uma pessoa de negócios em tempo integral para a SpaceX. Quando Musk a convidou para se juntar à empresa, ela hesitou por cerca de um mês antes de aceitar, tornando-se a sétima funcionária.

Nos primeiros anos, a SpaceX trabalhou para provar que poderia construir foguetes mais baratos que os da Nasa. Em 2015, pousou com sucesso seu primeiro propulsor reutilizável. Em um acordo negociado por Shotwell, o Facebook (hoje Meta) contratou a SpaceX para lançar um satélite de US$ 200 milhões para levar internet à África Subsaariana, mas o foguete explodiu em um teste pré-lançamento. Mark Zuckerberg criticou a empresa nas redes sociais, irritando Musk, mas Shotwell o convenceu a não retaliar, segundo duas pessoas com conhecimento do episódio.

Shotwell é uma das poucas pessoas que consegue moderar os impulsos de Musk, segundo ex-executivos. Alguns a chamavam de "encantadora de Elon". "Eu gosto mais dele pessoalmente do que da versão dele no Twitter", comentou ela no podcast da Stanford Graduate School of Business. "Na verdade, muitas vezes eles parecem duas pessoas diferentes para mim."

Em 2016, Shotwell ajudou a convencer Musk a apoiar Hillary Clinton na disputa presidencial, segundo três ex-executivos. Na época, Musk declarou que Trump "não era a pessoa certa" e chamou as políticas ambientais de Clinton de "as corretas". Musk desde então se tornou apoiador do republicano.

Shotwell incentiva feedback e permite que funcionários enviem e-mails após reuniões. Em 2021, na Starbase, no Texas, interveio para otimizar operações após a demissão de outro executivo, oferecendo janelas de 15 minutos para reuniões sob a condição: "Nada de pessimistas". Ela liderava reuniões semanais com altos funcionários, às vezes sem Musk, e realizava encontros regulares para mulheres na SpaceX.

"Ela era uma pessoa em quem eu podia me ver", comentou Paige Holland-Thielen, ex-engenheira da SpaceX. "Eu nunca serei Elon Musk porque sou mulher. Mas ela parecia muito mais humana."

Em 2022, após a Business Insider publicar que a SpaceX pagou indenização a uma comissária de bordo que acusou Musk de oferecer pagamento por ato sexual, Shotwell escreveu uma carta aos funcionários dizendo acreditar que as alegações eram falsas. Musk negou qualquer crime. Quando funcionários, incluindo Holland-Thielen, expressaram preocupações sobre o comportamento de Musk, Shotwell foi inicialmente receptiva, mas depois que eles escreveram uma carta aberta destacada pela imprensa, disse que estavam perturbando a empresa. Os funcionários acabaram demitidos, e Shotwell participou de algumas reuniões por telefone, segundo queixa ao Conselho Nacional de Relações Trabalhistas.

À medida que a SpaceX se aproxima de abrir capital, Shotwell tem aparecido em mais eventos públicos. Em março, participou do Mobile World Congress em Barcelona, promovendo o Starlink Mobile. Recentemente, abraçou a visão de Musk de fundir a SpaceX com sua empresa de IA, xAI, para desenvolver data centers orbitais, embora alguns investidores questionem a relação com foguetes e Marte. "Na verdade, acho que podemos colocar uma constelação de satélites de IA em órbita antes de conseguirmos construir a capacidade de energia que precisaríamos para alimentar os data centers aqui na Terra", afirmou à revista Time.

Com informações de Folha — Mercado.