Levantamento realizado pela Confederação Nacional da Indústria (CNI), obtido pela Folha, revela que 95% das empresas do setor industrial brasileiro registraram aumento nos custos de transporte de mercadorias no primeiro trimestre de 2026. Desse total, 56% relataram uma alta elevada nos gastos com frete, seguro e logística. O estudo atribui o cenário à escalada dos conflitos entre Estados Unidos, Irã e Israel, iniciada em 28 de fevereiro, que levou ao fechamento do Estreito de Hormuz, rota crucial para o comércio mundial de petróleo.

Impacto direto do conflito

Das empresas que reportaram aumento nas despesas de transporte, 52% citaram relação direta com os conflitos no Oriente Médio. Outros 35% consideram essa associação moderada, enquanto apenas 5% afirmam que o aumento não tem vinculação com a guerra.

Pesquisa e abrangência

A pesquisa da CNI foi realizada entre 16 de abril e 5 de maio, ouvindo 145 empresas de todos os portes, distribuídas em 31 setores industriais de todas as regiões do país. O objetivo foi medir como o choque internacional do petróleo afetou as operações e a percepção do setor sobre as medidas governamentais.

Setores mais afetados

O impacto é mais acentuado entre empresas que dependem do comércio exterior. Seis em cada dez exportadoras afirmam que a elevação dos custos está fortemente associada ao conflito, enquanto 37% apontaram reflexo moderado. A percepção é semelhante entre importadores brasileiros.

Modalidades de transporte

O choque de preços do petróleo atingiu diversos meios logísticos:

  • Transporte marítimo nacional: 40% das empresas registraram forte aumento de custos, e 50%, alta moderada.
  • Transporte marítimo internacional: 54% apontaram forte aumento, e 38%, alta moderada.
  • Transporte rodoviário nacional (principal modal no Brasil): 54% tiveram forte elevação, e 41%, aumento moderado.
  • Transporte rodoviário internacional: 42% reportaram forte aumento, e 56%, alta moderada.

Evolução do preço do petróleo

A média trimestral do petróleo tipo Brent saltou de US$ 63,10 por barril no quarto trimestre de 2025 para US$ 78,10 no primeiro trimestre de 2026, quando a crise se intensificou. Em março, no auge, o Brent superou US$ 113. Na semana passada, o barril fechou a US$ 87,33, queda atribuída a expectativas de um acordo para reabertura do Estreito de Hormuz, por onde passam entre 20% e 30% do petróleo mundial.

Inflação e custos

Com os combustíveis como principal componente do transporte de cargas, a alta foi repassada à cadeia logística, elevando custos de produção e distribuição. Esse efeito pressiona os preços ao consumidor e a inflação. Segundo o IBGE, a alimentação no domicílio subiu 1,65% em maio, o maior índice para o mês em 18 anos (desde 2008, quando foi de 2,27%).

Outros fatores e avaliação de medidas

Além do conflito, as empresas apontam problemas estruturais que contribuíram para o aumento dos fretes. A tributação sobre o transporte foi citada por 36%; custos de fornecedores, por 26%; e questões de mão de obra, por 24%.

A CNI também avaliou a reação das empresas às medidas anunciadas pelo governo federal em março, como subsídio ao diesel, desoneração temporária de PIS/Pasep e Cofins sobre o combustível e criação de alíquota de 12% de Imposto de Exportação sobre vendas externas de petróleo bruto. Para 54% das empresas, essas iniciativas serão pouco eficazes para reduzir os custos de transporte nos próximos meses; 16% as consideram ineficazes; e apenas 3% acreditam que serão efetivas. Entre os motivos, destacam-se dúvidas sobre a capacidade fiscal do governo para manter os incentivos, receio de aumento futuro da carga tributária e concentração do mercado de combustíveis, que pode dificultar o repasse das medidas aos preços finais.