A administração do presidente Donald Trump recuou da decisão de desativar a Iniciativa de Observatórios Oceânicos, um sistema de monitoramento marinho considerado crucial para o estudo das mudanças climáticas. A suspensão foi anunciada nesta quinta-feira (18) pela Fundação Nacional de Ciência (NSF), após forte reação de congressistas de ambos os partidos.
Em maio, a NSF havia informado que enviaria navios para retirar instrumentos ancorados no fundo do mar nas costas dos estados de Oregon, Washington, Alasca, Carolina do Norte e na região entre a Groenlândia e a Islândia (mar de Irminger). Esses equipamentos coletam dados sobre inundações, ondas de calor marinhas e outros fenômenos climáticos nos oceanos Atlântico e Pacífico.
Suspensão da desativação
Em comunicado, a NSF declarou que, com efeito imediato, não prosseguirá com a remoção ou redução de equipamentos. A agência também convocará um painel de especialistas para definir o futuro do sistema. No entanto, algumas boias, sensores e instrumentos já haviam sido retirados na costa de Oregon e Washington. A NSF afirmou que está desenvolvendo planos para reinstalar os equipamentos após manutenção.
Edward Dever, professor de oceanografia da Universidade Estadual de Oregon que gerencia parte dos instrumentos, disse que 6 das 7 boias de ancoragem da região foram removidas. Segundo ele, encontrar embarcações para recolocá-las pode levar meses. "Acredito que poderíamos ter uma boia pronta para ser instalada antes do final do verão e 1 ou 2 prontas até o outono", afirmou Dever. "Os navios geralmente são agendados com cerca de um ano de antecedência."
Reação do Congresso
Na quarta-feira (17), o Senado aprovou por unanimidade uma medida que impedia o desmonte do sistema. A proposta foi apresentada pelos senadores Jeff Merkley (democrata do Oregon) e Lisa Murkowski (republicana do Alasca). Congressistas de ambos os partidos argumentaram que a ação do governo era ilegal e ameaçava a segurança das comunidades costeiras.
Murkowski criticou a falta de consulta prévia: "A NSF seguiu em frente por conta própria, não apenas unilateralmente, mas sem nenhum aviso, nenhum alerta. Eles nem se deram ao trabalho de nos consultar e foi aí que aconteceu a verdadeira falha." Ela destacou que as indústrias pesqueiras do Alasca dependem dos dados oceânicos para avaliar como o aumento das temperaturas ameaça espécies e que as informações são cruciais para entender fenômenos como o El Niño.
Jeff Merkley classificou a decisão de desmontar o sistema como "uma estupidez" em comunicado. A deputada Zoe Lofgren (democrata da Califórnia), líder no Comitê de Ciência da Câmara, comemorou o recuo e disse que acompanhará de perto os próximos passos da NSF.
Impactos para ciência e pesca
Na última década, os dados coletados permitiram que cientistas estudassem como o oceano absorve gases de efeito estufa, como ondas de calor marinhas afetam a pesca e o risco de colapso de correntes oceânicas vitais. Pescadores consultam as informações em tempo real sobre ventos e ondas antes de sair ao mar. Meteorologistas usam as observações para melhorar previsões de furacões e tsunamis.
Custos e controvérsias
A NSF havia dito que desmontar o sistema economizaria US$ 48 milhões anuais em custos operacionais. No entanto, congressistas apontaram que o governo estaria desperdiçando os US$ 368 milhões investidos na instalação dos instrumentos em 2016. Os custos operacionais representam uma fração mínima dos gastos totais do governo. O Senado já havia restaurado recursos do programa nos dois anos anteriores, quando a administração Trump tentou cortá-los.
Resposta internacional
Após o anúncio do plano de desmonte, a União Europeia anunciou um investimento de 92 milhões de euros (US$ 107 milhões) para reforçar sua própria observação dos oceanos. Embora a medida já estivesse planejada antes da decisão dos EUA, autoridades europeias enfatizaram o contraste. Costas Kadis, comissário da UE para Pesca e Oceanos, disse na ocasião: "Sinais extremamente preocupantes estão vindo do outro lado do Atlântico."