O governo do presidente Donald Trump está desmontando um sistema de observação oceânica avaliado em US$ 368 milhões (cerca de R$ 1,8 bilhão), instalado há uma década para monitorar ambientes costeiros, ecossistemas marinhos e correntes que influenciam o clima global. A Fundação Nacional de Ciência (NSF) informou que enviará navios neste mês para começar a retirar mais de 900 instrumentos de águas profundas ancorados na costa do Oregon, do estado de Washington, do Alasca, da Carolina do Norte e do mar de Irminger, entre a Groenlândia e a Islândia.

Cientistas utilizavam dados do sistema para compreender como o oceano absorve gases de efeito estufa, como mudanças na temperatura oceânica — incluindo ondas de calor marinhas — afetam a pesca ou sinalizam alterações climáticas maiores, além de inundações costeiras na costa leste dos Estados Unidos. A estação no mar de Irminger era fundamental para estudar a Circulação Meridional de Revolvimento do Atlântico (Amoc), sistema que alguns cientistas temem estar enfraquecendo devido ao aquecimento global. Um colapso dessa corrente poderia ter efeitos climáticos severos.

As amarrações no mar de Irminger estão fixadas a 2.800 metros de profundidade e fazem parte de uma colaboração internacional. Michael England, porta-voz da NSF, afirmou que a decisão de desmontar a rede, chamada Iniciativa de Observatórios Oceânicos, "está alinhada com a estratégia mais ampla da NSF de ter uma abordagem mais ágil para priorizar o apoio a prioridades científicas em evolução e tecnologias emergentes, bem como uma abordagem deliberada para a gestão inteligente do ciclo de vida dentro de seu portfólio de infraestrutura de pesquisa".

Craig McLean, ex-cientista-chefe interino da Administração Nacional Oceânica e Atmosférica (Noaa) no primeiro mandato de Trump, disse que a medida segue um padrão do governo republicano. "Isso reflete a contínua falta de compreensão que o atual governo tem do valor e do mérito científico", afirmou. "Ao desmantelar um sistema como esse, empurramos os Estados Unidos mais uma vez para um papel secundário na liderança científica global."

O sistema começou a operar em 2016 e tinha previsão de funcionar por 25 anos. Jim Edson, meteorologista marinho que liderou a iniciativa, o chamou de "o sistema de observação oceânica em operação contínua mais avançado do mundo". Quando foi proposto, a NSF afirmou que era importante ter uma presença de longo prazo em locais cientificamente relevantes nos oceanos Atlântico e Pacífico. A remoção dos instrumentos pode levar 15 meses. Instrumentos sísmicos ao redor de um vulcão submarino ativo na costa do Oregon continuarão operando até 2028.

Cada estação de observação consiste em várias amarrações que fixam fileiras de dispositivos conectados a cabos, medindo correntes oceânicas e condições químicas e biológicas desde a superfície até milhares de metros de profundidade. Os instrumentos foram reforçados para resistir à pressão das profundezas, à água do mar corrosiva e a organismos marinhos. Veículos robóticos controlados remotamente e planadores coletam e transmitem dados para laboratórios.

Financiada pela NSF, a rede era coordenada pelo Instituto Oceanográfico Woods Hole em colaboração com as universidades Rutgers, de Washington e do Estado do Oregon. Procurado, um porta-voz do instituto encaminhou as perguntas à NSF. A operação da rede custava US$ 48 milhões por ano (R$ 241 milhões). O governo Trump tentou repetidamente encerrá-la, propondo cortar seu financiamento em 80% tanto em 2025 quanto em 2026. O Congresso resistiu, restaurando os recursos. Para reduzir custos, os gestores desligaram alguns instrumentos e coletaram menos dados, conforme apresentação de dezembro de 2025 na reunião anual da American Geophysical Union. Ainda assim, a NSF seguiu com a desativação.

Hilary Palevsky, professora no Boston College, usou dados dos instrumentos de Irminger na última década para entender como o oceano absorve dióxido de carbono. Cientistas se beneficiam ao baixar dados de instrumentos remotos, evitando viagens difíceis e caras ao mar. Retirar os instrumentos sem um plano para armazená-los ou continuar coletando dados "é muito precipitado", disse ela. "Uma das verdadeiras tragédias aqui é que coletar dados de forma eficaz nesse local foi um enorme desafio de engenharia, e não é o tipo de coisa em que você pode simplesmente deixar suas anotações para a próxima pessoa que assumir. Há muita expertise que corre o risco de ser perdida."

O orçamento anual de US$ 48 milhões era pequeno em comparação com o valor dos dados coletados, na avaliação de McLean. A estação ao largo do Cabo Hatteras, na Carolina do Norte, coletava dados sobre correntes costeiras que influenciam o clima e a pesca comercial. Mike Muglia, professor de estudos costeiros na Universidade East Carolina, usou os dados para entender ondas, correntes e vida marinha em um local de testes de energia renovável marinha em Nags Head, Carolina do Norte. Amarrações na costa de Oregon e Washington capturaram dados de temperatura, acidez e teor de oxigênio fundamentais para prever mudanças ambientais e a saúde da indústria pesqueira. Outra estação está ancorada a mil quilômetros da costa, no centro do Golfo do Alasca.

Com informações de Folha — Ambiente.