O governo federal trabalha com um cenário de seca extrema e risco elevado de queimadas para o segundo semestre de 2026. Uma sala de situação foi criada para acompanhar, em conjunto com a área técnica, as projeções do fenômeno El Niño.
De acordo com dados apresentados pelo Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden), há 70% de probabilidade de um El Niño forte ou muito forte em 2026. O fenômeno, que se forma entre junho e agosto, pode se intensificar e se prolongar até o fim do ano e início de 2027. A maior preocupação se concentra no último trimestre, quando os efeitos climáticos podem prolongar a estiagem e intensificar os incêndios florestais.
Impactos regionais
Nas regiões Norte e Nordeste, são esperados redução das chuvas e aumento das temperaturas, com períodos de estiagem mais severos e longos, elevando o risco de insegurança hídrica. No Sudeste e Centro-Oeste, há possível comprometimento da estação chuvosa, o que pode afetar a recuperação dos reservatórios e aumentar o risco hidrológico. Ondas de calor também são efeitos comuns do El Niño — os anos de 2023, 2024 e 2025 foram os mais quentes globalmente e registraram o maior número de ondas de calor no Brasil, fator que contribui diretamente para as queimadas.
André Lima, secretário de Controle de Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente (MMA), afirmou: “Se vier mais forte, o impacto do El Niño vai ser uma estiagem mais prolongada, o que agrava a situação lá pra outubro e novembro. Temos seis meses de preparação para esse período mais crítico.”
O Cemaden ressalta, porém, que a intensidade do evento não está diretamente relacionada à gravidade dos impactos. Em 2024, por exemplo, um El Niño moderado provocou fortes chuvas no Rio Grande do Sul e a maior seca em 70 anos no país, com mais de 80% dos municípios em condições de estiagem.
Prevenção e combate
Na reunião, os técnicos orientaram que a preparação é indispensável para reduzir custos materiais e fatalidades. O governo federal vem atualizando as medidas de prevenção e combate a incêndios. Entre as estratégias adotadas está o aumento do efetivo de brigadistas federais: para 2026, serão 4.385 profissionais — 2.600 do Ibama e 1.785 do ICMBio —, um aumento de 26% em relação a 2024.
Haverá também reforço orçamentário do Fundo Amazônia, que passa a apoiar ações de prevenção e combate a incêndios em estados fora da Amazônia, como Cerrado e Pantanal. Em julho, foram aprovados R$ 150 milhões para os Corpos de Bombeiros Militares e brigadas florestais de Mato Grosso do Sul, Minas Gerais, Goiás, Bahia, Piauí e Distrito Federal.
O Ibama prevê instalar pelo menos seis bases avançadas em regiões mais críticas, como Pantanal, Amazônia e Matopiba, com raio de ação entre 100 e 200 km, para reforçar a atuação com aeronaves e brigadas. O Executivo atua prioritariamente em áreas federais, como parques nacionais, territórios indígenas e assentamentos, e em mega incêndios (acima de milhares de hectares).
Lima detalhou: “A prioridade do governo federal é fazer o primeiro ataque nas áreas federais e depois reforçar nas áreas onde os corpos de bombeiros dos estados e municípios não derem conta. Foram R$ 30 milhões destinados a quase 30 municípios para se equiparem e elaborarem seu planejamento.” Ele enfatizou que a responsabilidade deve ser compartilhada, inclusive com propriedades privadas, conforme a Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo, implementada em 2024: “Não é o governo federal que vai apagar o fogo do Brasil inteiro. Isso não existe.”
Municípios
Em maio, a Confederação Nacional de Municípios (CNM) divulgou nota técnica com orientações aos gestores municipais para preparação diante dos possíveis impactos. O presidente da CNM, Paulo Ziulkoski, destacou que a ausência de programas nacionais suficientemente estruturados exige atuação antecipada das administrações locais. Um levantamento da entidade aponta que os desastres naturais provocaram prejuízos de R$ 785,4 bilhões no Brasil entre 2013 e 2025, com 95,1% dos municípios registrando algum tipo de impacto.
Próxima reunião
A sala de situação, que envolve 13 órgãos federais e é coordenada pela Casa Civil, reúne-se mensalmente. O próximo encontro está previsto para a última semana de junho, quando as projeções do fenômeno serão atualizadas com maior precisão. Especialistas explicam que não é possível estimar a intensidade com segurança, pois cada episódio tem comportamento distinto.
Com informações de CNN Brasil.