O governo do presidente argentino Javier Milei está transferindo para o setor privado um complexo estatal de hotéis à beira-mar onde trabalhadores argentinos se hospedavam por cerca de US$ 10 a diária. A medida sinaliza o fim de uma era de "turismo social" peronista.
Construído no final dos anos 1940 sob o governo de Juan Domingo Perón e sua esposa Eva Perón, os nove hotéis de Chapadmalal incorporavam o princípio de garantir o direito a férias para os trabalhadores. Até recentemente, argentinos podiam passar uma semana ali, com todas as refeições inclusas, por preços subsidiados que chegavam a US$ 3 ou US$ 4 por noite.
Até 5.000 hóspedes passavam dias na praia, nadavam no Atlântico e participavam de festas nos terraços. "Pessoas que passavam os dias trabalhando no campo vinham para cá e sentiam: 'Sim, eu mereço isso'", afirmou Cintia Suárez, administradora do museu Eva Perón do local.
O governo Milei eliminou em 2025 a exigência legal de fornecimento de "turismo social" e, em março, anunciou uma licitação para concessão privada de 30 anos de Chapadmalal. O complexo não pode ser vendido devido aos termos de aquisição do terreno nos anos 1940. Já o outro complexo estatal, em Córdoba, será vendido.
O presidente afirma que o turismo social estatal, com orçamento de aproximadamente US$ 7 milhões em 2024, é incompatível com sua visão de livre mercado. "Não faz sentido o Estado administrar uma atividade complexa na qual não tem vantagem competitiva nem experiência", declarou o ministro da Desregulamentação, Federico Sturzenegger.
Peronistas argumentam que Milei está destruindo um modelo que fez da Argentina um dos países mais igualitários da América Latina. "Agora temos um país onde apenas algumas pessoas conseguem viver bem", afirmou Manuel Diez, ex-funcionário do complexo.
Os argentinos estão divididos sobre a direção política. Cerca de um terço se identifica como peronista ou kirchnerista, mas o movimento ainda não identificou um candidato para desafiar Milei em 2027. O apoio a Milei diminuiu nos últimos meses, com cortes de empregos e queda nos salários reais.
"A pergunta que as pessoas estão fazendo agora não é 'devemos ter turismo social no estilo peronista?', mas 'o modelo de Milei me permite uma qualidade de vida boa o suficiente para que eu possa tirar férias de vez em quando?'", questionou Marcelo García, diretor da consultoria Horizon Engage.
Chapadmalal fica a 30 km de Mar del Plata. O complexo tem restaurantes, centro médico, capela, cinema e cinco teatros. Funcionários relembram que argentinos de regiões pobres viam o oceano pela primeira vez durante as visitas.
Em maio, o governo demitiu os cerca de 50 funcionários restantes. Ex-funcionários e grupos comunitários protestaram, e sindicatos entraram com ações judiciais. O governo peronista da província de Buenos Aires solicitou administrar os hotéis, mas não recebeu resposta, segundo a secretária provincial de Turismo, Sole Martínez.
Um funcionário da agência estatal de propriedades disse que ainda não há data definida para a licitação e que não está decidido se os hotéis operarão como instalações econômicas ou premium. A secretaria de Turismo da Argentina recusou-se a comentar.
O artista de rua Gustavo Casais, hóspede frequente, teme que a concessão torne os hotéis inacessíveis. "Se a privatização significa que os preços serão impossíveis para pessoas comuns, isso é terrível. Chapadmalal tem que ser para o povo."
Com informações de Folha — Mercado.