O governo de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) avalia a necessidade de crédito extraordinário para enfrentar os impactos do El Niño e evitar a propagação de incêndios florestais durante o período de seca. O tema foi discutido em reunião da sala de situação contra incêndios na segunda quinzena de maio e voltará à pauta em junho, segundo informações obtidas pela Folha.

O ano eleitoral de 2026 é motivo de preocupação. Foi elaborado um mapa que identifica regiões com maior risco de queimadas intencionais motivadas por clima político, com o objetivo de alimentar ataques de opositores ao governo Lula. O plano prevê a participação de forças de segurança em operações de fiscalização e investigação, da Defesa na logística e dos Transportes no controle de rodovias, entre outras atribuições.

O Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente) e o ICMBio (Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade) devem necessitar de cerca de R$ 200 milhões em crédito extraordinário, parte para recompor perdas orçamentárias. A AGU (Advocacia-Geral da União) prepara resposta formal a questionamento do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal, sobre as ações do Executivo para conter os efeitos do El Niño.

Na reunião ministerial de 3 de julho, a ministra da Casa Civil, Miriam Belchior, destacou que o governo entregou R$ 150 milhões do Fundo Amazônia em equipamentos de combate a incêndios para seis estados do Pantanal e do Cerrado. “Muito importante, a gente sabe que o El Niño está chegando ameaçadoramente, mas nós estamos nos preparando para enfrentar da melhor maneira os seus efeitos”, afirmou.

As mudanças climáticas agravaram secas, incêndios e tempestades nos últimos anos. O El Niño, fenômeno caracterizado pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Pacífico, tornou-se mais constante e intenso. Sobre o Brasil, ele provoca ondas de calor que favorecem incêndios florestais e secas no Norte e Nordeste, além de chuvas torrenciais no Sul — como as registradas em Porto Alegre (RS) em 2024. O cenário impacta plantações do agronegócio e impulsiona o desmatamento. O El Niño foi um dos motivos das grandes crises de queimadas em 2020 e 2024.

O Ministério do Meio Ambiente realiza reuniões periódicas com meteorologistas de órgãos como Agência Nacional de Águas, Cemaden, UFRJ e Ibama para monitorar a situação. O panorama atual é de sinal amarelo: a chance de um El Niño forte ou pior é de cerca de 70%, mas as previsões têm taxa de incerteza de 50% e um cenário mais preciso só será possível em julho, quando o sinal vermelho pode ser acionado.

Por enquanto, o governo adota ações preventivas, como queimas prescritas — fogo controlado para eliminar matéria orgânica que poderia alimentar incêndios maiores. Essa estratégia começou em 2025 e, segundo o Ministério do Meio Ambiente, resultou em queda de 39% na área queimada no território nacional naquele ano, na comparação com a média dos oito anos anteriores.

Parte importante da estratégia é a integração com estados, já que os bombeiros são responsáveis pelo combate ao fogo em propriedades privadas, onde começam a maioria dos incêndios. Desde 2024, o governo federal cria acordos de cooperação com entes federativos, e um plano conjunto para Pantanal, Cerrado e Amazônia é esperado ainda este ano. O Executivo também elabora nova parceria com as Polícias Militares ambientais, contingente de cerca de 8.000 agentes para atuar com policiamento ostensivo em áreas de maior risco.

Neste ano, o Ibama já aplicou 574 notificações prévias. Esse instrumento permite que, caso a propriedade registre incêndio no futuro, o proprietário seja responsabilizado se não tiver adotado medidas preventivas, como formação de brigadas.

Na última reunião da sala de situação, em maio, foram apresentadas as ações necessárias caso as previsões mais pessimistas se confirmem. Cada pasta avaliará o que já pode concretizar e o que demandará novos esforços e recursos.

Risco eleitoral e mapeamento

A disputa eleitoral é fator de atenção. Dentre as regiões de maior risco de incêndios por motivação política, o Pará é o principal. Em agosto de 2019, fazendeiros do estado realizaram o “dia do fogo”, ação coordenada de queimadas em apoio às políticas antiambientais do então governo Jair Bolsonaro (PL).

Pelo mapeamento do governo, o Pará concentra os três municípios avaliados como de maior risco para este ano: Altamira, Novo Progresso e São Félix do Xingu, cidades com forte incidência de desmatamento ilegal associado a grilagem e criação de gado, e com tendência bolsonarista. Outras 18 cidades foram classificadas como risco intermediário: quatro no Pará, seis no Amazonas, cinco no Mato Grosso e três no Tocantins. Mais cerca de cem municípios em todo o país são preocupantes em nível menor, incluindo regiões do Norte, Nordeste, Centro-Oeste e Sudeste.

O objetivo do governo é que a Polícia Federal atue com foco nesses locais, registre flagrantes, investigue e responsabilize possíveis culpados.

Mobilização e recursos

Até o momento, o governo já mobilizou 4.410 brigadistas no país, divididos em mais de 200 equipes do Ibama e do ICMBio, um recorde. Pelo plano, a Força Nacional precisará destacar mais de 200 agentes para compor brigadas e atuar na segurança em operações de fiscalização. O governo avalia disponibilizar aeronaves do Ministério da Defesa, o que deve demandar contratação de horas-voo extras, e uma cooperação com a Bolívia para ações na fronteira, por meio do Ministério das Relações Exteriores. Também estão previstas campanhas de conscientização de produtores rurais e da população, preparação de brigadistas e limpeza de estradas.

Com informações de Folha — Ambiente.