Uma auditoria do Tribunal de Contas da União (TCU) de 2012, obtida pela Agência Pública, classificou o Instituto Conhecer Brasil (ICB) como uma entidade “de fachada”. Doze anos depois, o mesmo ICB, presidido por Karina Ferreira da Gama, firmou um contrato de R$ 108 milhões com a gestão do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), para fornecer 5 mil pontos de internet em comunidades vulneráveis da capital paulista.

Karina Ferreira da Gama é também proprietária da Go Up Entertainment, produtora do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. Conforme revelou a Agência Pública em 26 de maio, o contrato do ICB teve um aditamento no final de 2025 que elevou o valor total para mais de R$ 157 milhões, para instalação e manutenção de 3,2 mil pontos de internet — 64% do volume inicialmente contratado. O aditamento ocorreu seis dias após o caso vir a público em reportagem do Intercept Brasil e ser alvo de pedidos de investigação. Antes disso, outros três aditamentos haviam antecipado pagamentos sem que as metas de serviços fossem cumpridas.

Na manhã de 1º de junho de 2026, a investigação avançou com uma operação policial em endereços pessoais de Karina, da produtora do filme e da entidade, além da Secretaria Municipal de Inovação e Tecnologia. São apuradas suspeitas de fraude na licitação, na execução do serviço contratado e suposto desvio de dinheiro público, além de confusão patrimonial e desvio de finalidade dos recursos.

Problemas já apontados pelo TCU em 2012

Muitos dos problemas agora investigados já constavam em relatório do TCU de 2012 sobre entidades que receberam recursos do Ministério da Cultura em 2010. O contrato do ICB analisado na época, de R$ 553 mil (valor atualizado para R$ 1,46 milhão pelo IGP-M até dezembro de 2025), foi assinado por meio de emenda parlamentar do então senador Gim Argello (hoje no Avante) para a realização de um festival de música em Brasília.

Segundo a assessoria do ministério, o pagamento não foi liberado “em atendimento à recomendação constante do Aviso-Circular Conjunto n. 128/2010/MPOG/CGU-PR”. O documento do TCU levantava dúvidas sobre a capacidade de realizar o trabalho e o alto grau de terceirização, além de incertezas quanto à idoneidade da entidade.

O Cadastro Nacional da Pessoa Jurídica do ICB data de 1990, quando Karina era pré-adolescente, segundo ela própria. Seu nome passou a ser ligado à entidade apenas em 2010, quando o instituto mudou de dirigentes e atividades, assinando seus primeiros contratos com o poder público na área de cultura. Até 30 de março de 2010, o ICB era registrado como Associação Rodoviários de Brasília e classificado como “Instituição de Longa Permanência para Idosos”. Uma semana após a alteração da razão social, houve mudança completa do quadro de dirigentes. Entre 2008 e 2010, o instituto não tinha folha de pagamento ou quadro de pessoal.

Para contratos como esses, geralmente se exige que a entidade tenha pelo menos três anos de atividade. A mudança, na avaliação dos auditores, indica que a entidade pode ter sido “adquirida” ou “preparada formalmente” para firmar parcerias com o poder público. O ICB foi apontado como entidade de fachada, sem existência formal, qualificação técnica e capacidade operacional. O instituto fazia cotação de preços com as mesmas três empresas de produção de eventos, assessoria e marketing, e boa parte do valor do convênio foi executada por uma delas.

Relação com contrato atual

Os pontos destacados pelo TCU em 2012 guardam relação direta com as ressalvas feitas pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) antes da assinatura do contrato atual, como a fragilidade dos critérios para avaliar a capacidade técnica e operacional da entidade. Outro aspecto é a possibilidade de subcontratação de empresas privadas, o que foi efetivado pela entidade de Karina.

Antes do contrato milionário na área de Inovação e Tecnologia, o ICB recebia recursos basicamente de emendas parlamentares para eventos literários, de inclusão digital, esportes e empreendedorismo. Em um deles, os pagamentos continuaram mesmo após funcionários da prefeitura relatarem dificuldade de contato com a entidade.

O ICB e a Go Up fazem parte de uma rede de entidades e empresas ligadas a Karina, incluindo a Academia Nacional de Cultura, que recebeu mais de R$ 2,6 milhões em emendas para produção de uma série conservadora, e a Conhecer Brasil Assessoria, Produção e Marketing Cultural, que tentou captar R$ 4,9 milhões para uma série sobre atletas cristãos quando Mário Frias era secretário nacional de Cultura do governo Bolsonaro.

Posicionamento da prefeitura

Em nota, a prefeitura de São Paulo afirmou que “não há qualquer impedimento junto à administração pública para a contratação do Instituto Conhecer Brasil (ICB)”. Segundo a gestão Nunes, “no momento da celebração do Termo de Colaboração, em 2024, a entidade atendeu integralmente aos requisitos de habilitação previstos no processo de Chamamento Público, que respeitou e seguiu rigorosamente a Lei Federal nº 13.019/2014”.

A prefeitura declarou ainda que “o ICB apresentou toda a documentação necessária para comprovar sua aptidão e regularidade para participar de certames e formalização do contrato” e que “os apontamentos feitos pelo Tribunal de Contas do Município (TCM) foram sanados à época e a Corte concordou com o prosseguimento do chamamento”. A gestão municipal garantiu que “vem exercendo a fiscalização do Termo de Cooperação assinado com a Organização da Sociedade Civil, zelando pelo adequado cumprimento do objeto celebrado”.

Com informações de Agência Pública.