Uma pesquisa realizada pela Quaest a pedido do instituto More in Common indica que, no Brasil, a geração Z (jovens de 16 a 24 anos) não é mais conservadora do que as gerações mais velhas, contrariando estudos internacionais e percepções culturais recentes. O levantamento ouviu cerca de 10 mil brasileiros em seus domicílios entre janeiro e fevereiro de 2025.

Segundo os dados, 68% dos homens e 62% das mulheres jovens se identificam como conservadores, percentuais inferiores aos registrados entre as faixas etárias mais avançadas. A pesquisa, no entanto, revela contradições nas opiniões dos jovens: embora apoiem a igualdade de direitos para mulheres e casais gays, rejeitam rótulos como feminismo e demonstram resistência a minorias como travestis e mulheres trans.

Paradoxos nas opiniões

Um exemplo é a homossexualidade: cerca de 70% dos homens e 83% das mulheres jovens concordam que casais gays devem poder adotar crianças, mas mais da metade também afirma que a homossexualidade deve ser vivida de forma reservada. Para Helena Vieira, líder de projetos da More in Common, a concordância com a adoção pode refletir uma preocupação com o bem-estar infantil, e não necessariamente aceitação plena da homossexualidade.

No tema de gênero, menos de um quarto dos jovens acredita que homens são superiores às mulheres, mas quase metade endossa que o feminismo promove ódio aos homens e ameaça a família brasileira. Além disso, 59% concordam que discutir "ideologia de gênero" nas escolas confunde a sexualidade das crianças, e 55% acham que o tema deve ser tratado apenas pela família.

Bolsonarismo mais forte entre homens jovens

Apesar de serem menos conservadores em termos gerais, os homens jovens apresentam maior identificação com o bolsonarismo: 42% dos homens de 16 a 24 anos se identificam com as ideias de Jair Bolsonaro, contra 35% na faixa de 25 a 54 anos, 29% entre 55 e 64 anos e 25% entre os maiores de 65 anos. A diferença se mantém mesmo considerando a margem de erro.

Para Vieira, o voto é uma composição complexa: "Os bolsonaristas não necessariamente compraram o pacote inteiro do Bolsonaro". Ela acrescenta que o conservadorismo parece ser a gramática política que mais organiza o brasileiro, mais do que a oposição entre esquerda e direita.

Metodologia e comparações internacionais

Os pesquisadores atribuem a divergência com estudos estrangeiros à metodologia: enquanto pesquisas internacionais costumam ser online, a brasileira foi presencial. Pablo Ortellado, diretor-executivo do More in Common e professor da USP, afirma que pesquisas virtuais podem gerar distorções, especialmente no Brasil, devido a limitações de acesso à internet e viés de seleção de participantes.

Ele cita como exemplo a série "Adolescência" e movimentos como a machosfera e o looksmaxxing, que ganharam repercussão na mídia, mas podem representar fenômenos de nicho. "A internet não é um retrato fiel da sociedade brasileira", diz Ortellado, ressaltando que os dados sugerem que esses fenômenos não são de massa, embora mereçam monitoramento.

Os pesquisadores destacam que o estudo não é definitivo e que ainda não se sabe se as diferenças observadas entre gerações persistirão ao longo do tempo ou se as pessoas se tornam mais conservadoras com a idade.

Com informações de BBC News Brasil.