Segundo a agência climática dos Estados Unidos (NOAA), a probabilidade de formação de um El Niño forte chega a 82% a partir de julho. O fenômeno tende a intensificar o calor e alterar o regime de chuvas globalmente, podendo causar secas severas ou precipitações acima da média. Diante desse cenário, o pesquisador Carlos Nobre publicou recentemente um texto destacando que o consumo mundial de água já supera a capacidade de reposição dos sistemas naturais.
O geógrafo Wagner Ribeiro, professor de pós-graduação em Ciência Ambiental da Universidade de São Paulo (USP), corrobora com Nobre. “Nós estamos consumindo muito mais do que consumíamos de água há 20, 30, 40 anos atrás”, afirmou. Para ele, porém, o cerne do problema não é a escassez de água, mas sim sua qualidade, distribuição e aproveitamento.

“Primeiro, temos muita água no mundo ainda, felizmente. O problema é a qualidade dessa água e aonde essa água está. Quando você começa a associar a questão para além da ocorrência natural, nós temos o que eu chamo de uma ‘distribuição política da água’. Nós vamos chegar, sim, a situações de escassez muito graves”, diz Ribeiro. Ele cita que em diversas localidades já há escassez hídrica aguda e que alguns usam a expressão “falência dos estoques hídricos” diante do volume muito inferior à reposição natural. “Nós estamos retirando dos reservatórios de água, dos rios, corpos d’água em geral, e principalmente da água subterrânea.”
O geógrafo aponta que a capacidade de reposição natural dessas reservas é “muito mais lenta do que nós estamos retirando” e defende a mobilização para a recuperação das áreas degradadas. Ele destaca que a água está em disputa e que grandes empresas e corporações são os maiores consumidores e desperdiçadores. “Essa é a grande questão. Nós temos hoje grandes consumidores de água. Se você pensar no setor de energia, que faz uso intensivo de água, comparado com usos urbanos; mas as grandes concentrações urbanas também demandam muita água. Na agricultura irrigada, os dispersores de água absurdos em larga escala no agronegócio. Na indústria, sem dúvida, é necessário o uso mais adequado e o reuso da água.”

Para Ribeiro, as empresas buscam o lucro imediato e deixam a reposição hídrica “para quem vem depois”. Ele também defende a revisão do consumo final. Como alternativas, aponta a recuperação de áreas com mata, já que as árvores têm papel fundamental no ciclo da água. As próprias chuvas intensas poderiam ajudar, “mas a gente não está preparado para utilizar água que eventualmente possa cair em demasia”.

Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.