O futurista Jonathan Brill, em entrevista ao jornal espanhol El Mundo, apresentou uma análise sobre os impactos da inteligência artificial (IA) que evita alarmismos, mas aponta transformações profundas. Segundo ele, cinco grandes ondas impulsionadas pela IA remodelarão a ordem mundial nos próximos anos.
Fragmentação geopolítica e corrida tecnológica
A primeira onda já está em curso: a globalização dá lugar a uma fragmentação, com Estados Unidos e China travando uma disputa pelo controle da infraestrutura digital do século XXI — semicondutores, dados e sistemas de computação avançada. Para Brill, a IA acelera essa fragmentação porque transforma eficiência em poder geopolítico. Washington restringe exportações de chips avançados, enquanto Pequim investe para reduzir sua dependência tecnológica.
Envelhecimento populacional e automação necessária
A segunda tendência é demográfica: Europa, Japão e China envelhecem rapidamente, com menos jovens entrando no mercado de trabalho. A automação deixa de ser apenas inovação e passa a ser necessidade econômica. A IA não elimina profissões, mas comprime tarefas — um trabalhador poderá realizar em uma hora o que antes exigia uma manhã inteira, impactando salários e o valor social do trabalho intelectual.
Brill alerta para a erosão silenciosa da capacidade de julgamento: se delegarmos às máquinas a formulação de hipóteses e decisões cotidianas, poderemos produzir uma geração eficiente, mas intelectualmente fragilizada. Ele questiona a crença de que eficiência produz felicidade, lembrando que sociedades tecnologicamente avançadas enfrentam níveis crescentes de solidão e ansiedade.
Automação militar e riscos de conflitos
A terceira onda é militar: o gasto global com defesa poderá crescer até 50% entre 2025 e 2030. Guerras futuras serão cada vez mais automatizadas, com drones baratos destruindo equipamentos caros e sistemas de IA analisando imagens de satélite e coordenando operações. Brill compara o cenário atual ao período anterior à Primeira Guerra Mundial, com tensões entre China e EUA, Rússia e OTAN, Israel e Irã, além de polarização política e crises climáticas.
Novo modelo corporativo e desafios éticos
A quarta onda envolve empresas que funcionarão como organismos descentralizados, apoiados por IA. Isso gera velocidade e eficiência, mas amplia riscos éticos e jurídicos: quando decisões forem tomadas por sistemas automatizados, quem responderá pelos erros? O mundo ainda não tem respostas claras para essas questões.
Valorização do humano
Brill critica o marketing do Vale do Silício em torno da inteligência artificial geral (AGI), que serve para atrair investimentos. Ferramentas como ChatGPT impressionam, mas dependem de supervisão humana. Para ele, a vantagem competitiva do futuro será profundamente humana: criatividade, discernimento, imaginação e capacidade ética se tornarão os ativos mais raros em um mundo automatizado. “Nunca tivemos acesso a tanto conhecimento, e talvez nunca tenhamos corrido tanto risco de desaprender o difícil exercício de pensar por conta própria”, conclui.
Com informações de Revista Fórum.