Em artigo publicado na Revista Cult, o filósofo Charles Feitosa, doutor pela Universidade de Freiburg e professor titular da UNIRIO, defende que o futebol seja tratado como objeto filosófico legítimo, e não apenas como metáfora ilustrativa. Ele observa que, embora existam obras que aproximam filosofia e futebol, a produção acadêmica ainda é escassa nessa área.
Feitosa cita o livro O futebol nas ciências humanas no Brasil (Editora Unicamp, 2020), organizado por Sérgio Settani Giglio e Marcelo Weishaupt Proni, que reúne artigos de diversas áreas das ciências humanas, mas não inclui contribuições específicas da filosofia. Ele menciona também o filósofo Vilém Flusser, que em Fenomenologia do brasileiro (escrito em 1971, publicado no Brasil em 1998) destacou a distinção entre “jogar” e “brincar” na língua portuguesa, associando o futebol-arte brasileiro a uma terceira estratégia: jogar para mudar as regras do jogo.
Outros exemplos citados são o artigo de Bento Prado Jr. na Folha de S.Paulo (2004), que comparou o drible de fazer tabela com paredes ao modo como lidava com os clássicos da filosofia, e a coletânea Filosofia e futebol: Troca de passes (Sulina, 2012), organizada por Luiz Rohden, Marco Antonio Azevedo e Celso Cândido de Azambuja, com textos de Álvaro Valls e Ignacio Helfer.
A contingência do futebol como “acontecimento”
Feitosa argumenta que a imponderabilidade das partidas de futebol — a “caixinha de surpresas” — traduz o conceito filosófico de “acontecimento” (Ereignis), desenvolvido por pensadores como Jacques Derrida. Para Derrida, o acontecimento é a verdadeira forma do futuro, o “porvir” (l’avenir), que chega de forma inesperada. O autor critica a racionalidade que tudo calcula e domestica o futuro, empobrecendo a capacidade de sustentar o imponderável. No futebol, essa dimensão “acontecial” estaria sendo neutralizada pela lógica de investimentos e lucros, mas ainda sobrevive em partidas em que a contingência é vivenciada.
A sabedoria dos pés
O artigo recorre ao filósofo português Manuel Sérgio, autor de Filosofia do futebol: Não há jogos; há pessoas que jogam (Cultura Editora, 2023), para quem o sucesso do futebol reside no fato de não se usarem as mãos. Feitosa contrapõe a cultura “mão-cêntrica” à exceção do futebol, baseado na habilidade dos pés. A partir da fenomenologia de Martin Heidegger — que afirma “não vemos porque temos olhos, mas temos olhos porque vemos” —, o autor sugere que o futebol não é mero retrocesso à animalidade, mas um lembrete de que é possível experimentar outros modos de existência, como uma sociedade “pé-cêntrica”.
Por outras filosofias e outros futebóis
Feitosa defende uma filosofia que se alie aos estudos culturais para resgatar a conexão entre conceitos e contingências da vida. Ele propõe estratégias como resgatar o futebol de rua, incentivar corpos dissidentes, estudar metáforas do futebol na ética cotidiana e profissional, e questionar representações de masculinidade no esporte. O autor também sugere maior presença da filosofia nos currículos de educação física e na preparação de atletas, além de dar visibilidade ao futebol feminino e apoiar a participação de pessoas trans nos esportes. Citando Nietzsche — “o ser humano é um animal que ainda não foi definido” —, Feitosa conclui que o futebol é uma das “linhas de frente das batalhas pelo pós-humano”, que precisa ser ocupada por ciências igualmente “pós-humanas”.
Com informações de Revista Cult.