A filósofa Marcia Tiburi publicou um ensaio na Revista Cult no qual defende a necessidade de uma reflexão filosófica sobre o futebol. Segundo ela, o esporte é frequentemente tratado como uma experiência que dispensa análises mais profundas, tanto por jogadores quanto por torcedores, que o veem como algo autossuficiente.
Tiburi aponta que o elitismo intelectual contribuiu para que as ciências humanas avançassem pouco no estudo dos esportes, especialmente do futebol. Ela cita obras como Veneno remédio: O futebol e o Brasil, de José Miguel Wisnik, e As mulheres no universo do futebol brasileiro, organizada por Cláudia Samuel Kessler, Leda Maria da Costa e Mariane da Silva Pisani, como exemplos de trabalhos que abordam o tema com seriedade.
A filósofa argumenta que o futebol é um espaço de poder e que a falta de investigação sobre ele favorece a manutenção de estruturas antidemocráticas. Ela critica a naturalização do futebol como “paixão”, o que, em sua visão, impede uma análise crítica das relações de poder político, econômico e simbólico envolvidas.
Tiburi utiliza conceitos de Michel Foucault para descrever o futebol como um dispositivo de “biopoder” e “anatomopoder”, além de propor o termo “ginecropoder” para se referir à morte simbólica das mulheres no esporte. Ela relembra a proibição do futebol feminino no Brasil em 1941, durante o governo de Getúlio Vargas, e a retomada da modalidade apenas em 1983, destacando a persistência de disparidades salariais e de reconhecimento.
Para a autora, o corpo no futebol é frequentemente lido como masculino e associado a força e violência, ignorando questões de gênero, raça, classe e capacitismo. Ela defende que as regras do esporte refletem uma sociedade hierarquizada e que é necessário discutir como essa estrutura funciona.
O ensaio propõe uma “filosofia do futebol” que o trate como objeto de reflexão. Tiburi compara o futebol a sistemas autorreferenciais, como os estudados por Douglas Hofstadter em Gödel, Escher, Bach, e afirma que o esporte possui sua própria ontologia, epistemologia, estética e ético-política. Ela sugere que o futebol é uma linguagem autossuficiente que “pensa” os envolvidos, criando um “efeito de verdade” quase teológico, no qual torcedores e jogadores se tornam devotos de uma espécie de religião.
O dossiê “Filosofia do futebol”, do qual o ensaio faz parte, busca abrir espaço para discussões acadêmicas sobre o esporte, envolvendo teorias filosóficas, antropológicas, sociológicas e psicanalíticas. O objetivo é compreender o futebol e o sujeito a ele relacionado, seja jogador ou torcedor, imerso em uma linguagem da qual não pode escapar.
Com informações de Revista Cult.