Um estudo publicado na revista Proceedings of the National Academy of Sciences revela que a conexão entre florestas e corpos d'água é essencial para a proteção de anfíbios contra o fungo Batrachochytrium dendrobatidis (Bd), responsável pelo declínio de centenas de espécies no mundo. A pesquisa, liderada por pesquisadores da Universidade Estadual Paulista (Unesp) e da Penn State University, mostra que a separação espacial entre habitat terrestre e aquático — fenômeno chamado habitat split — compromete a capacidade da pele das rãs de recrutar bactérias benéficas que inibem o patógeno.

O estudo amostrou 586 rãs de quatro espécies na Mata Atlântica do estado de São Paulo, em paisagens com diferentes graus de conexão entre florestas e riachos. Utilizando o banco de dados AmphiBac, que reúne mais de 7.800 isolados bacterianos testados em laboratório, os pesquisadores estimaram a fração da comunidade bacteriana da pele capaz de inibir o fungo. O resultado indicou que, quanto maior o habitat split, menor a proporção dessas bactérias protetoras, mesmo após controlar fatores como cobertura florestal e densidade de bordas.

Duas espécies migratórias — Ischnocnema henselii e Rhinella ornata — apresentaram cargas mais altas do fungo nas áreas mais fragmentadas. Já a Boana faber, uma rã maior que utiliza bromélias-tanque como micro-habitat úmido dentro da própria floresta, mostrou-se menos afetada, indicando que as bromélias funcionam como um amortecedor, fornecendo água sem que o animal precise sair da mata.

O estudo também revelou que o habitat split altera a dinâmica de montagem das comunidades bacterianas. Para as espécies migratórias, o fator mais importante explicando quais bactérias estavam presentes era o tempo: conforme a estação reprodutiva avançava, a diversidade bacteriana caía mais rapidamente em paisagens fragmentadas. Em ambientes conectados, o contato com a água e o fungo é contínuo, permitindo um “treinamento imunológico” constante. Em paisagens desconectadas, o contato é interrompido por meses, e a pele do anfíbio perde o esquadrão bacteriano eficaz.

Os autores concluem que proteger fragmentos de floresta isolados não é suficiente. É necessário reconectar a mata aos rios por meio de corredores ecológicos, restauração de matas ciliares e manutenção de pequenos alagados no interior dos fragmentos. A saúde animal e a saúde da paisagem caminham juntas, e os anfíbios atuam como sentinelas, alertando sobre riscos antes que o colapso se torne irreversível.

Com informações de Super Interessante.