Edir Macedo, líder da Igreja Universal. Foto: Reprodução.
Os valores alocados em fundos inflados do banco Digimais, do líder da Igreja Universal Edir Macedo, podem chegar a R$ 1,7 bilhão em ativos duvidosos, cifra superior ao dobro da suposta fraude de R$ 670 milhões investigada pela Polícia Federal na Operação Miragem.
O Digimais afirmou que “permanece à disposição das autoridades para prestar quaisquer esclarecimentos e colaborar com as apurações em curso”. O banco também disse que “reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes”.
A PF apura uma operação supostamente fraudulenta com uso de um fundo de investimentos para inflar balanços do banco em R$ 670 milhões. Segundo a investigação, fundos do Digimais compraram por R$ 71 milhões direitos creditórios ligados à indenização judicial obtida por herdeiros da antiga Companhia de Mineração e Siderurgia.
Esses direitos têm relação com a empresa cujo controle acionário a ditadura de Getúlio Vargas assumiu em 1940, no processo de criação da Vale do Rio Doce. A Justiça Federal do Rio condenou a União a indenizar acionistas e herdeiros legais, mas ações desse tipo podem levar anos até o pagamento dos valores.
Banco Digimais – Reprodução
Operação com a própria holding de Macedo chamou atenção de auditores
Segundo a PF, os fundos elevaram de R$ 71 milhões para R$ 741 milhões o valor do ativo comprado. O Digimais vendeu esses direitos pelo valor inflado à própria holding controladora, pertencente a Edir Macedo, com prazo de quitação apenas em 2032.
A operação registrou lucro nas demonstrações financeiras do banco. Como o negócio envolveu o próprio dono da instituição, auditores independentes já haviam apontado ressalvas sobre a transação.
A apuração também identificou ao menos outros quatro fundos que, somados, declaravam R$ 1,7 bilhão em ativos duvidosos. Auditores do banco afirmaram que não conseguiram auditar R$ 3 bilhões dos R$ 4 bilhões investidos pelo Digimais em fundos de investimentos porque a instituição não forneceu documentos para aferir o lastro desses ativos.
Dois desses fundos fizeram operações com carteiras de financiamentos veiculares, principal negócio do banco desde a época em que Macedo era acionista minoritário e o Digimais ainda se chamava Renner. No fundo Tabor, foram declarados R$ 960 milhões em carteiras de crédito, mas mais da metade correspondia a financiamentos com mais de 180 dias de inadimplência, situação que deveria constar como provisão de perdas ou prejuízos; nas demonstrações financeiras, o banco declarou apenas o investimento de R$ 980 milhões.
No fundo Hatikvah, com patrimônio de R$ 711 milhões, o Digimais comprou a posição de cotista único do investidor anterior e pagou com carteiras de crédito veicular, não com dinheiro. Essas carteiras reuniam inadimplência e processos judiciais, incluindo financiamento de um carro roubado.
Outros R$ 526 milhões em fundos do Digimais, chamados ID Goiana e Cajaíba, foram direcionados a terras sem licença para construção de empreendimentos. Um deles aportou recursos em área preservada da União em Paraty, no Rio de Janeiro; outro, em um terreno vazio tomado por um banco em Goiana, no Nordeste de Pernambuco, cujas matrículas indicam valores inferiores a R$ 10 milhões.