Um fornecedor de biomassa da Aurora Coop, gigante do setor de carnes processadas, foi investigado pelo Ministério Público do Trabalho (MPT) após o resgate de 15 trabalhadores paraguaios submetidos a condições análogas à escravidão. O caso ocorreu na Fazenda São Miguel, em Figueirão (MS), em abril de 2026.
Os trabalhadores atuavam na extração de lenha, utilizada como biomassa energética pela indústria alimentícia. Segundo o MPT, o grupo não tinha registro em carteira, vivia em barracos de lona improvisados, não usava Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) e não dispunha de infraestrutura básica de higiene. A empresa Império Biomassas foi autuada por manter trabalhadores sem registro; outras autuações por trabalho escravo ainda serão concluídas.

Após o resgate, o MPT instaurou inquérito civil. Em depoimento, Everaldo Lucas da Silva, representante da Império Biomassas, afirmou que vendia a lenha cortada na fazenda para a Aurora. Em Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), Silva comprometeu-se a registrar os resgatados e pagar verbas rescisórias. Junto com os proprietários da fazenda, Valdir Locatelli Mendes e Vanessa Locatelli Mendes, e a Coopergreen, ele também se responsabilizou por indenizações de R$ 718 mil — R$ 518,7 mil por dano moral individual e R$ 259,3 mil por dano moral coletivo. Com o acordo, o MPT arquivou o inquérito.
Procurada, a Aurora Coop afirmou que “por questão de ética, não comenta eventuais situações e nem externaliza informações envolvendo fornecedores” e que prima “pelo integral cumprimento de suas regras de conformidade e integridade”. O Assaí disse que notificou a Aurora para esclarecimentos e que monitora o cumprimento da legislação trabalhista de todos os fornecedores. O Carrefour informou ter iniciado apuração interna e solicitado esclarecimentos formais ao fornecedor sobre as relações comerciais.
Condições de trabalho e cadeia produtiva
A lenha extraída na Fazenda São Miguel era destinada à unidade da Aurora em São Gabriel do Oeste (MS). Em 2024, a empresa anunciou investimento de R$ 320 milhões na ampliação dessa unidade para aumentar a oferta de produtos processados. Segundo a Aurora, a fábrica está habilitada para exportação de cortes e miúdos de suínos para diversos países.
Dados do Balanço Energético Nacional mostram que, em 2024, a indústria brasileira consumiu 26,4 milhões de toneladas de lenha, sendo o setor de alimentos e bebidas responsável por cerca de 9 milhões de toneladas (um terço do consumo industrial).
O procurador do Trabalho Paulo Douglas Almeida de Moraes destacou que a cadeia da lenha expõe trabalhadores à exploração. “Em toda a cadeia produtiva da madeira há uma espécie de consenso no sentido de buscar vantagens: desde aquele que monta a equipe de trabalhadores até a empresa que consome, exceto, claro, o trabalhador”, afirmou. Para ele, o combate ao problema deve considerar toda a cadeia, pois “quanto mais evoluímos na cadeia, mais chegamos a figuras econômicas com capacidade de cumprir obrigações”.
Elson Fernandes de Lima, diretor-executivo da FSC Brasil (Conselho de Manejo Florestal), ressaltou que as empresas devem se comprometer com suas cadeias de fornecimento. “O controlador de uma empresa deve se perguntar de onde vem a lenha que ele está consumindo”, disse.
Com informações de Brasil de Fato — leia a matéria original.