O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem atribuído ao seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), a criação do Pix, sistema de pagamentos instantâneos do Banco Central. A declaração ocorre em meio à repercussão do tarifaço anunciado pelos Estados Unidos e das críticas ao Pix feitas pelo governo Donald Trump. No entanto, um vídeo de outubro de 2020 mostra o então presidente aparentemente alheio à medida no dia em que o cadastro das chaves foi iniciado.
Na ocasião, Bolsonaro conversava com apoiadores em frente ao Palácio da Alvorada. Um homem o cumprimentou pelo Pix, descrevendo-o como um novo sistema do Banco Central que ajudaria a população com pagamentos. O ex-presidente respondeu sobre outro tema: mencionou um pacote do então ministro da Infraestrutura, Tarcísio de Freitas, que desburocratizaria a aviação civil. Ao ser corrigido pelo apoiador, que explicou tratar-se de um sistema de pagamentos 24 horas por dia, sete dias por semana, Bolsonaro afirmou: “Não tomei conhecimento. Vou conversar essa semana com o Roberto Campos”, referindo-se ao então presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto.
Apesar do episódio, Flávio tem repetido que “o Pix é do Brasil e do Bolsonaro”. A declaração ganhou força após o Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) divulgar, na terça-feira (2), um documento que acusa o Banco Central de favorecer o Pix de forma injusta e discriminatória em relação a outros meios de pagamento, como empresas de cartão americanas. O USTR propôs uma tarifa de 25% sobre produtos brasileiros como retaliação, cabendo ao presidente Trump decidir pela aplicação ou não.
O anúncio ocorre dias depois de Flávio se reunir com Trump na Casa Branca, em 26 de maio. Na ocasião, o senador obteve uma vitória política ao conseguir que os EUA classificassem facções criminosas como terroristas. Contudo, o ataque ao Pix e o tarifaço transformaram o encontro em um revés. Flávio afirmou ter pedido a Trump que não taxasse produtos brasileiros.
Em resposta, o presidente Lula (PT) chamou Flávio de “traidor da pátria”. Durante evento em Goiás, na terça-feira, Lula exibiu um cartaz com os dizeres “O Pix é do Brasil” e disse: “O tal do bolsonarista foi nos Estados Unidos […] e pediu para o Trump intervir no Pix brasileiro. Você acha que a gente vai deixar? Não vai deixar”. No dia seguinte, em Minas Gerais, Flávio levantou um cartaz afirmando que “O Pix é do Brasil e do Bolsonaro!!!” e atribuiu a Lula a culpa pelo tarifaço: “Se o presidente tivesse boa relação com os EUA, o Brasil estaria fora dessa lista. Essa tarifa é do Lula”.
O Pix começou a ser desenvolvido por equipe técnica do Banco Central durante o governo de Michel Temer (MDB), em 2018, quando o presidente da autoridade monetária era Ilan Goldfajn. Foi lançado em 2020, na gestão de Bolsonaro, com Roberto Campos Neto à frente do BC. O cadastro de chaves entrou em funcionamento em 5 de outubro de 2020, e o sistema passou a operar plenamente em 16 de novembro do mesmo ano.
Um levantamento da empresa de análise de dados Palver, baseado em mais de 100 mil grupos públicos de WhatsApp e Telegram, mostra que Flávio é apontado como culpado pelas ameaças ao Pix ou pelo novo tarifaço em 8 de cada 10 mensagens opinativas sobre o assunto. A análise, que exclui mensagens neutras, refere-se ao período de 27 de maio a 2 de junho, atrelado à viagem do senador aos EUA e à reunião com Trump.
Com informações de Folha — Poder.