O Partido Liberal (PL) agendou para 25 de julho, em São Paulo, a convenção nacional que oficializará a candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. A escolha da capital paulista representa uma ruptura com a tradição do grupo, que costumava lançar candidaturas presidenciais no Rio de Janeiro, e visa o maior colégio eleitoral do país.
O lançamento ocorre em meio a investigações da Polícia Federal que apuram transações financeiras do senador com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ex-controlador do Banco Master, e o financiamento da cinebiografia Dark Horse, sobre seu pai, Jair Bolsonaro. As suspeitas incluem evasão de divisas e conexões com esquemas de lavagem de dinheiro.

Convenção em São Paulo
A direção nacional do PL levou em conta o peso eleitoral do estado e a avaliação de que ele concentra um dos palanques mais sólidos da campanha. Flávio deverá dividir o palco com o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que buscará reeleição, além do presidente da Assembleia Legislativa paulista, André do Prado (PL), e do deputado federal Guilherme Derrite (PP-SP), ambos cotados para o Senado.
O apoio do prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), e a proximidade de Flávio com setores empresariais e industriais também pesaram na decisão. O calendário do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) permite convenções entre 20 de julho e 5 de agosto; o PL optou por abrir o período.
A pré-campanha avalia transferir sua estrutura principal de Brasília para São Paulo, facilitando agendas com o empresariado, a Faria Lima e a proximidade com Tarcísio e Nunes. A mudança já teria sido comunicada à Polícia Legislativa.
Investigações financeiras
Segundo apurações da Polícia Federal, cerca de R$ 61 milhões teriam sido repassados, a pedido de Flávio, para o fundo de investimentos Havengate, nos Estados Unidos, administrado por Paulo Calixto, advogado que atua para Eduardo Bolsonaro (PL-SP). A avaliação preliminar é que as operações podem configurar crime de evasão de divisas.
Além disso, a empresa Entre Investimentos e Participações, intermediária nos repasses ao filme, movimentou R$ 20 milhões com o FIDC Gold Style, fundo investigado por receber R$ 1 bilhão de empresas ligadas ao esquema de lavagem de dinheiro do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Há ainda uma terceira frente: o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), teria recebido US$ 30 milhões de Daniel Vorcaro em meio a um acordo para barrar a CPI do Master no Senado, com suposto envolvimento de Flávio nas tratativas.
Impacto nas pesquisas
Levantamentos da Genial/Quaest, do Datafolha e do Nexus indicam queda nas intenções de voto do senador após o vazamento de mensagens com Vorcaro. Na simulação de segundo turno da Genial/Quaest em junho, Lula (PT) aparece com 44% contra 38% de Flávio, vantagem de 6 pontos. Em maio, os dois estavam empatados (42% a 41%); em abril, Flávio chegou a figurar numericamente à frente. Um levantamento da AtlasIntel, que também captou a queda, foi suspenso pelo presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques.
Interesses em jogo
De acordo com a Revista Fórum, Daniel Vorcaro aposta na eleição de Flávio e no apoio do grupo político que o ajudou a obter prisão domiciliar para evitar a cadeia, especialmente diante da iminente rejeição de seu segundo acordo de delação premiada pela PF e pela Procuradoria-Geral da República. A aposta inclui a influência de ministros do STF: Kassio Nunes Marques já suspendeu uma pesquisa desfavorável ao senador, e Gilmar Mendes pode votar pela prisão domiciliar de familiares do banqueiro.
A PF deve emitir parecer desfavorável ao acordo, que tentou blindar figuras como Ciro Nogueira (PP-PI) e o próprio Flávio. Com a rejeição, Vorcaro corre o risco de perder o benefício da prisão na Superintendência da PF em Brasília e ser transferido para o Complexo Penitenciário da Papuda. O lançamento formal da candidatura em 25 de julho ocorre, portanto, em meio a uma teia de interesses jurídicos e políticos cujos desdobramentos ainda estão em aberto.