Humilhada, como disse ter se sentido, por Flávio Bolsonaro (PL-SP), Michelle Bolsonaro (PL) arquitetou de forma meticulosa o vídeo, divulgado na noite desta quarta-feira (24), para implodir a candidatura do enteado e causar uma hecatombe bem maior nas pesquisas de intenção de votos do que o estrago causado pelo áudio em que ele cobra do banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, parte dos 24 milhões de dólares prometidos supostamente para o filme Dark Horse, a cinebiografia de Jair Bolsonaro (PL), que seria usada na campanha.

Como mostram pesquisas recentes, o elo com Vorcaro causou um efeito externo ao bolsonarismo, principalmente entre os chamados eleitores não polarizados, que não se identificam com Lula ou Bolsonaro. Pesquisa BTG/Nexus do dia 15 de junho mostra que o presidente ampliou a vantagem de 1 para 9 pontos percentuais em 20 dias. Na pesquisa do dia 25 de maio, Lula marcava 31% contra 30% de Flávio Bolsonaro. Vinte dias depois, o presidente foi a 35%, enquanto o senador caiu para 26% no principal cenário de primeiro turno.

O impacto se deu principalmente em dois nichos.

Entre as mulheres, Lula abriu 20 pontos e lidera por 49% a 29%. Entre os homens, o senador segue liderando, mesmo em meio aos escândalos, por 40% a 37%, segundo a mesma pesquisa Nexus, confirmada por outros institutos.

Entre evangélicos, a pesquisa Atlas Bloomberg divulgada em 19 de maio — que foi censurada pelo ministro Kássio Nunes Marques, do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), a mando do Partido Liberal — mostrou que Flávio vinha derretendo no eleitorado evangélico, que o vê com desconfiança, e chegou a cair 15 pontos após a revelação do elo com Vorcaro.

Em março, a Atlas apontava que Flávio Bolsonaro tinha apoio de 65,4% dos evangélicos e Lula, 14%. Em abril, a migração de votos era nítida: 58,6% declaravam votar no filho de Jair Bolsonaro e 23,7% no atual presidente. Com a revelação do caso BolsoMaster, o apoio derreteu mais 8 pontos: Flávio marca 50,9% e Lula, 25%.

O abandono dos evangélicos

Antes de anunciar, na segunda-feira (22), que faria um vídeo explicando “o que aconteceu no Ceará”, Michelle já vinha sendo vista como alternativa a Flávio Bolsonaro no meio evangélico.

“Nunca foi ‘para tirar o PT’, e sim por projetos de poder. Já gravei um vídeo explicando o que aconteceu no Ceará e vou publicá-lo em breve”, anunciou, causando pânico nos bastidores da campanha do enteado.

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Dias antes, Silas Malafaia, entusiasta da ex-primeira-dama, abandonou Flávio Bolsonaro, dizendo que não passa a mão na cabeça de “corrupto de direita”.

No dia seguinte, em 19 de junho, foi a vez de Robson Rodovalho, da Igreja Sara Nossa Terra, largar a mão do filho “01” de Jair Bolsonaro (PL) e defender abertamente o nome de Michelle Bolsonaro para substituir o enteado como representante do clã na chapa presidencial.

“Eleição é emoção, igual à torcida em jogo de futebol. A Michelle mexe com o eleitorado feminino e com os jovens. Aliás, ela mexe até com o público gay, que tradicionalmente não milita para a direita. Ela tem relevância, sim, e claro que está fazendo falta para o Flávio”, afirmou Rodovalho, que tem tido encontros frequentes com Michelle.

Ao justificar o derretimento e a “perda de confiança do segmento evangélico”, o líder da Sara Nossa Terra disse que, se Flávio “mentiu desta vez”, sobre o elo com Vorcaro, “pode mentir na próxima”.

“Evangélico é intransigente com mentira. A pior coisa que tem é uma coisa ser dita e a realidade ser outra. Ele deveria ter falado sobre o assunto desde o início”, sentenciou, criando uma figura de linguagem para o fato: “O copo de cristal trincou, e ele vai precisar reconhecer isso”.

Vídeo implode candidatura

Enquanto Flávio Bolsonaro se preparava para ver a estreia de Neymar na Copa, com ingresso ganhado de um “amigo” para o jogo entre Brasil e Escócia, em Miami, nos EUA, Michelle Bolsonaro participou da festa de aniversário do bispo JB Carvalho, líder da Comunidade das Nações, igreja frequentada por ela em Brasília.

Em foto nas redes sociais da bispa Dirce Carvalho, Michelle aparece sorridente ao lado de Martha Sellier, mãe da filha de Carlos Bolsonaro (PL-RJ), outro enteado desafeto, antes de publicar o vídeo de quase meia hora, dividido em duas publicações em seu Instagram.

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No cenário, um detalhe chama a atenção. Além de diplomas na parede ao fundo e do “eu te amo” em linguagem de sinais com uma mão dourada, uma estrela de Davi, artefato usado por judeus e evangélicos, ilustra a cena.

Na mensagem, Michelle se coloca como vítima, diz ter escolhido “a paz para não expor a minha família”, mas ressaltou haver “um limite para o quanto uma pessoa consegue suportar ataques e mentiras”, direcionando ao que Rodovalho já havia falado sobre os evangélicos dias antes.

Michelle ainda focou no eleitorado mais sensível para Flávio: “as mulheres, um público enorme, poderoso e que ainda via Jair com desconfiança”, disse sobre o trabalho no PL Mulher.

“Nas eleições de 2024, elegemos 45,8% mais mulheres do que em 2020. Com pouco mais de um ano de trabalho, foram 1.005 mulheres eleitas. A semente que plantamos começou a dar frutos e fico feliz quando vejo esse fruto chegando a todos, incluindo ao pré-candidato Flávio, que hoje é bem recebido e apoiado por nossas meninas do PL Mulher nos estados”, disparou.

Em seguida, Michelle expõe a agressividade, a rispidez, o autoritarismo e o desrespeito às mulheres por parte do enteado, ressaltando o desprezo pelo trabalho que ela fez junto ao eleitorado feminino e o desgaste para emplacar três indicadas — Bia Kicis (PL-DF), Priscila Costa (PL-CE) e Carol de Toni (PL-SC), que disputa com Carlos Bolsonaro — entre as 17 a que teria direito na disputa ao Senado nos estados.

Michelle, então, volta a usar uma figura de linguagem que remete ao episódio da facada em Bolsonaro, em 2018, para se referir ao enteado após ser destratada por se opor ao apoio a Ciro Gomes (PSDB) no Ceará.

“Quando o evento terminou, eu voltei para Brasília e, durante o trajeto de volta, aconteceu algo muito ruim. Algo que eu não esperava. Algo que doeu de um jeito que as palavras custavam a descrever. Uma punhalada. E é nesse momento que entra na história o meu enteado Flávio. O que estavam fazendo no Ceará contra um candidato leal e contra uma mulher fiel, ambos da direita, foi ruim”, afirmou Michelle.

Ao tratar da questão cearense, Michelle ainda afirmou que, para apoiar Ciro, Flávio e seus aliados estavam “perseguindo e tentando retirar da disputa uma mulher nordestina, mãe de quatro filhos, que dedicou tudo ao movimento em defesa da vida”, em um aceno simultâneo às mulheres e aos evangélicos.

Ao final do vídeo, Michelle cita a palavra “Deus” sete vezes e faz uma espécie de pregação ao falar que já havia “liberado o perdão” contra Flávio.

“Eles me tratam como se eu fosse idiota, como se eu fosse alguém que chegou ontem, mas eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam. Primeiro, eu nunca pedi, cobrei ou condicionei desculpas públicas de ninguém. Não preciso disso. Eu já liberei o perdão faz muito tempo. Eu não carrego o rancor no coração. Eu entrego tudo nas mãos de Deus. Todo mal que me fazem. É ao meu Deus que essas pessoas prestarão contas. Mas preciso que você entenda uma coisa, e isso é importante. Perdoar não é o mesmo que esquecer, querer continuar o relacionamento. São coisas completamente diferentes. Posso perdoar alguém de coração e, ainda assim, reconhecer que aquela relação não é saudável. Perdão é libertação, não é obrigação”, afirmou, rompendo definitivamente com Flávio Bolsonaro.

Com o vídeo direcionado aos evangélicos e às mulheres, Michelle Bolsonaro implode a estratégia de Flávio Bolsonaro, que dias atrás havia colocado Damares Alves (Republicanos-DF) e Daniella Consentino — a “Paulo Guedes de Saia” — no núcleo central de sua campanha para acenar aos dois eleitorados, já afetados diretamente com o Caso Master.

No entanto, diferentemente de Vorcaro, que derreteu Flávio Bolsonaro entre os eleitores independentes, Michelle provocará uma debandada interna, rachando a ultradireita e tirando votos que já eram dados como certos pelo enteado.