A FairStage, empresa fundada em 2026 por Arthur Moraes, Eduardo Ramella e Gabriel Silva Machado, utiliza inteligência artificial para produzir vídeos publicitários e campanhas digitais do conceito à entrega final. Os fundadores afirmam que a tecnologia reduz custos de produção audiovisual, mas destacam que o diferencial do negócio está na criação humana, na curadoria de referências e no uso das ferramentas para contar histórias.

A proposta da empresa é transformar ferramentas de IA em serviço publicitário. Na prática, isso envolve a criação do conceito da campanha, roteiro, escolha de referências, geração de imagens, produção de vídeos, ajustes de movimento, edição e entrega do material final ao cliente.

Segundo os fundadores, a FairStage não vende softwares, automações ou cursos de IA. A empresa se apresenta como uma agência de publicidade que usa inteligência artificial como parte central do processo de produção. “A gente não vende a IA, vende o poder de usar a IA para criar coisas relevantes”, disse Ramella em entrevista ao Poder360.

O modelo mira empresas que querem campanhas audiovisuais, mas não têm orçamento para grandes produções. Durante a entrevista, os fundadores citaram o exemplo de uma empresa média que poderia ter uma ideia de campanha, mas não teria recursos para contratar uma equipe tradicional de audiovisual. Segundo eles, uma produção que poderia custar R$ 200 mil numa estrutura tradicional pode se tornar mais acessível com o uso de IA, a depender do escopo do projeto. O objetivo, afirmam, é “democratizar o acesso a grandes ideias”. “O nome FairStage vem dessa ideia de um palco mais justo para as pessoas”, disse Moraes.

Como surgiu a empresa

A ideia da FairStage nasceu da combinação entre interesse em publicidade, experimentação com ferramentas de IA e desejo de criar campanhas visuais sem depender da estrutura tradicional do mercado audiovisual. Gabriel Silva Machado, formado em publicidade pela ECA-USP (Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo), disse que queria atuar como diretor de criação ou roteirista. Segundo ele, o avanço das ferramentas de IA tornou possível executar ideias que antes dependiam de equipes maiores e orçamentos mais altos.

A empresa surge em um mercado audiovisual publicitário em expansão. As exportações de obras publicitárias brasileiras chegaram a US$ 84,7 milhões em 2025, alta de 52% ante 2024, segundo levantamento da Apro (Associação Brasileira da Produção de Obras Audiovisuais). O valor considera receitas de 52 produtoras que integram a plataforma de internacionalização do audiovisual brasileiro.

Além da escala do mercado, tabelas referenciais do setor indicam que uma produção publicitária pode reunir custos separados de roteiro, direção de arte, motion design e outras etapas. Na lista de custos do Sistema Nacional de Agências e Propaganda, um roteiro de filme/VT institucional de até 60 segundos tem valor de R$ 17.027,82; a direção de arte para filme/VT, de R$ 4.049,01; e o motion design acima de 45 segundos, de R$ 7.098,91.

“Quando surgiram as IAs, primeiro com os modelos de linguagem, como o GPT, e depois com a revolução das imagens, isso viabilizou basicamente as minhas ideias”, afirmou Machado. Machado diz que, no início, os vídeos criados por IA ainda tinham qualidade baixa e eram vistos principalmente como memes. A percepção mudou, segundo ele, com a evolução das ferramentas de geração de imagem, áudio e vídeo. Na avaliação dos entrevistados, a IA passou a permitir a criação de peças com aparência mais profissional, embora ainda exija trabalho técnico, tentativa e erro e adaptação às limitações das plataformas.

Não é só prompt

Questionados sobre a ideia de que produzir publicidade com IA seria só “apertar um botão”, os fundadores da FairStage rejeitaram essa interpretação. Segundo eles, o trabalho começa antes do uso das ferramentas, com a definição do conceito, do repertório visual, da narrativa e do objetivo da campanha. A partir daí, a equipe escolhe quais plataformas usar, escreve comandos, testa variações, corrige falhas, adapta enquadramentos e monta o vídeo final. “Se você escrever algo genérico, vai ter algo genérico”, disse Ramella.

Eles afirmam que o uso profissional da IA exige entender o funcionamento das plataformas, e não só saber conversar com um chatbot. Um dos exemplos citados foi a dificuldade de fazer uma ferramenta reconhecer corretamente um sotaque em uma narração. Segundo os entrevistados, o problema foi resolvido depois que o comando passou a contextualizar o sotaque antes do texto principal. Para os fundadores, esse tipo de solução aparece com o uso constante da tecnologia. “É uma coisa que você descobre só na vivência”, disse Machado.

Curadoria humana

Na avaliação dos fundadores, a IA executa partes do processo, mas não define sozinha o conceito de uma campanha. “A origem tem que vir da gente”, disse Moraes. Segundo eles, a IA ajuda a estruturar ideias, organizar roteiros e executar imagens e vídeos. A criação inicial, porém, continua dependendo de repertório, referências e decisão humana. Os fundadores dizem evitar comandos genéricos, como pedir que a ferramenta crie uma campanha do zero, porque o resultado tende a ser pouco original.

Na entrevista, eles compararam o prompt a uma ferramenta de expressão, como o pincel para um pintor. A diferença, afirmam, é que o criativo precisa traduzir a própria ideia em comandos, testes e ajustes sucessivos. Os fundadores disseram que a IA não cria sozinha correlações simbólicas ligadas a experiências humanas, como frio, dor amorosa ou paixão. Segundo ele, a tecnologia pode executar uma imagem, mas a representação precisa ser construída por uma pessoa.

Direito autoral

A entrevista também tratou dos riscos de direito autoral, direito de imagem e uso de referências artísticas em conteúdos gerados por IA. Segundo Machado, quando usam referências visuais ou artísticas, buscam citar os artistas e evitar apropriação indevida. Ainda assim, reconhecem que há uma zona de indefinição jurídica sobre até que ponto uma referência visual exige pagamento, autorização ou licenciamento. “Direito autoral tem que ser regulamentado. É uma linha tênue entre usar uma referência e se apropriar indevidamente de uma obra, estilo ou imagem”, afirmou Moraes.

A discussão já mobiliza governos, tribunais e empresas de tecnologia pelo mundo. Em setembro de 2025 nos Estados Unidos, um juiz aprovou preliminarmente um acordo de US$ 1,5 bilhão entre a Anthropic, dona do Claude, e autores que diziam que a empresa utilizava livros pirateados para treinar modelos de IA. No Brasil, o PL 2.338/2023, que regulamenta a inteligência artificial, foi apresentado em maio de 2023 pelo então presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). O texto inclui regras sobre direitos autorais e uso de obras literárias, artísticas e científicas por sistemas de IA. A proposta foi aprovada pelo Senado em dezembro de 2024 e está na Câmara, onde aguarda parecer do relator, deputado Aguinaldo Ribeiro (PP-PB), na comissão especial sobre inteligência artificial.

Os fundadores também citaram o risco de uso de imagens de pessoas reais em vídeos sintéticos. Para os entrevistados, esse será um dos principais campos de disputa nos próximos anos, especialmente em publicidade, entretenimento e campanhas políticas.

Regulamentação do mercado

Os fundadores afirmam que a regulação de IA e big techs é necessária, especialmente em temas como política, pornografia, direito de imagem, direito autoral e publicidade de produtos já regulados, como bebidas e cigarros. Segundo eles, vídeos sintéticos criam situações que a legislação ainda precisa enquadrar. Na publicidade de bebidas, por exemplo, uma regra que impede a exibição de uma pessoa bebendo em uma propaganda poderia gerar dúvida sobre a aplicação da mesma restrição a um personagem criado por IA.

Ao mesmo tempo, os entrevistados dizem que a regulação precisa considerar o efeito sobre pequenos negócios que usam ferramentas estrangeiras. Muitas plataformas de vídeo generativo são cobradas em dólar e operadas por empresas de fora do Brasil. Na avaliação dos fundadores, regras mal calibradas podem elevar custos, restringir acesso a ferramentas ou desestimular a operação de plataformas no país. Para Moraes, o desafio é criar regras que protejam direitos sem impedir que empresas em estágio inicial usem IA para produzir conteúdo.

O debate ocorre enquanto o Supremo Tribunal Federal volta a analisar, na quarta-feira (10.jun.2026), recursos contra a decisão que ampliou a responsabilidade de plataformas digitais por conteúdos publicados por usuários. O julgamento trata de embargos de declaração nos REs (Recurso Extraordinário) 1.037.396 e 1.057.258, ligados aos Temas 987 e 533 de repercussão geral. Os processos discutem a aplicação do artigo 19 do Marco Civil da Internet, que condicionava a responsabilização civil das plataformas ao descumprimento de uma ordem judicial específica para remoção de conteúdo.

Risco eleitoral

Os fundadores da FairStage dizem ver usos positivos da IA na comunicação política, como a criação de vídeos para mostrar visualmente obras públicas, reformas ou projetos financiados por emendas. Um exemplo citado foi o de um deputado ou vereador que usa IA para mostrar como ficaria uma escola reformada. Ao mesmo tempo, afirmam que campanhas eleitorais formam uma zona de risco. Segundo eles, vídeos sintéticos e clones de voz ou imagem podem ser usados para tirar falas de contexto, simular situações que não ocorreram ou prejudicar adversários.

“Dentro da campanha eleitoral, sempre vai existir uma forma de má influência para você usar a IA”, disse Ramella. A empresa também citou o uso de clones de imagem e voz como uma possibilidade em contextos empresariais. No contexto eleitoral, porém, os fundadores dizem que a mesma tecnologia exige cautela, porque pode ser usada para simular falas, deslocar mensagens de contexto ou confundir eleitores. “Campanha eleitoral é um território complexo”, disseram. Segundo eles, a IA pode simular algo que uma pessoa “não tenha feito de fato” e influenciar a tomada de decisão dos eleitores.

As regras do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para o pleito de 2026 exigem que conteúdos sintéticos gerados ou alterados por IA sejam identificados de forma explícita, destacada e acessível na propaganda eleitoral, com indicação da tecnologia usada. A norma vale para conteúdos que criem, substituam, omitam, mesclem ou alterem imagens ou sons. O tribunal também proibiu a publicação, republicação e impulsionamento pago de novos conteúdos sintéticos que usem imagem, voz ou manifestação de candidato ou pessoa pública no período de 72 horas antes da votação até 24 horas depois do pleito, mesmo que o material esteja rotulado.

Com informações de Poder360.