O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), 80 anos, enfrenta o desafio da fadiga eleitoral, fenômeno que especialistas atribuem à sua longa trajetória política e ao desgaste de sua imagem. Lula é o terceiro governante que mais tempo permaneceu no poder no Brasil, atrás apenas de Dom Pedro 2º (49 anos) e Getúlio Vargas (18 anos). Até o fim de 2026, ele completará 12 anos na presidência, equivalente a três mandatos.

Para demonstrar disposição e afastar críticas à idade, a equipe de Lula divulga imagens dele correndo e fazendo exercícios. Na semana passada, a primeira-dama Rosângela Lula da Silva, a Janja, postou vídeos do presidente malhando sem camisa às 6h da manhã. No entanto, a questão etária é apenas parte do problema.

Lula está no cenário político desde os anos 1980 e participou de sete das nove eleições presidenciais desde a redemocratização. Em 2025, tornou-se o primeiro octogenário a ocupar a Presidência. O PT governou o Brasil por 17 anos neste século.

Segundo Paulo Loiola, consultor de marketing eleitoral especializado no campo progressista, o desgaste não se deve apenas ao tempo, mas às crises acumuladas pelo PT, como o mensalão e a Lava Jato, além do trabalho estruturado da oposição. Loiola avalia que a esquerda tem dificuldade de ampliar a comunicação digital, mesmo com ideias bem recebidas pela sociedade.

Lucas Pimenta, também consultor de comunicação eleitoral, afirma que a fadiga de Lula está relacionada a uma visão anacrônica das relações de trabalho. "Lula não se comunica com um novo trabalhador brasileiro. Ele tenta trazer medidas populistas, mas isso não se reflete nos números de aprovação do governo", diz Pimenta.

Pesquisa Datafolha mostra que 38% avaliam o governo Lula negativamente e 32% positivamente. Lula é visto como o mais experiente pela maioria, enquanto o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), 45, é considerado o mais moderno e inovador. Neste ano eleitoral, Lula anunciou um pacote de bondades, incluindo o Desenrola 2.0, o Gás do Povo e o Luz do Povo.

O presidente tenta associar seu terceiro mandato à aprovação do fim da escala 6x1 no Congresso, medida que beneficiaria 37 milhões de brasileiros. Contudo, especialistas apontam que Lula não respondeu aos segmentos que valorizam autonomia e empreendedorismo.

A imagem de Lula também se desgasta com gafes, muitas delas direcionadas ao público feminino, maior parcela do eleitorado. Em 2024, ele disse ser inacreditável que a violência contra a mulher aumente após jogos de futebol e emendou: "Se o cara é corinthiano, tudo bem".

Pimenta identifica uma mudança no arquétipo de Lula: de pai dos pobres nos primeiros mandatos para herói que se digladia com o bolsonarismo. "O que marca o governo Lula 3 é uma guerra ideológica permanente", afirma.

Leonardo Belinelli, professor de ciência política da UFRRJ, pondera que a longevidade de Lula indica o sucesso de suas políticas de inclusão, mas a repetição do discurso vira armadilha. "O mundo do trabalho mudou muito. O jovem não quer só picanha e cervejinha, ele quer um videogame de R$ 5.000", diz.

Belinelli analisa a fadiga de material a partir da alternância de poder, fundamento da democracia, e observa que o cansaço é uma tônica na América Latina. Para ele, a longevidade de Lula se aproxima e se distancia da de Vargas: ambos ampliaram a cidadania sem confrontar a burguesia, mas Lula sempre foi eleito democraticamente.

Em outubro, Lula enfrentará nas urnas um candidato com quase metade de sua idade. Belinelli afirma que não seria sagaz Flávio Bolsonaro atacar a idade do presidente, pois ele não é exatamente jovem e está associado à imagem do pai. "Pelo que estamos vendo, será uma eleição de lulistas contra não lulistas", conclui.

Com informações de Folha — Poder.