Mais de 2 mil línguas indígenas correm risco de extinção até o fim do século, e com elas pode desaparecer um vasto conhecimento ecológico tradicional, alertam pesquisadores. A conexão entre diversidade linguística e biodiversidade vem sendo cada vez mais documentada, com estudos mostrando que regiões ricas em espécies também abrigam a maioria das línguas do mundo.

Diversidade linguística e biodiversidade andam juntas

Larry Gorenflo, da Universidade Estadual da Pensilvânia, liderou uma equipe interdisciplinar que mapeou a sobreposição entre áreas de alta biodiversidade e alta diversidade linguística. Os resultados indicam que 70% das línguas do mundo estão concentradas em regiões consideradas prioritárias para a conservação da natureza. Além disso, muitas dessas línguas e espécies são endêmicas, ou seja, só existem naquelas localidades.

Segundo os pesquisadores, isso significa que os esforços de conservação podem gerar ganhos ou perdas significativos nesses pontos centrais. A sobrevivência das línguas e das espécies parece estar interligada, e a proteção de uma pode beneficiar a outra.

Estradas: ameaça comum a línguas e ecossistemas

Um estudo inovador liderado por Lindell Bromham e Xia Hua, da Universidade Nacional da Austrália, identificou os principais fatores que colocam as línguas em risco. Entre os três mais importantes está a densidade de estradas. “Uma maior densidade de estradas, que pode estimular o deslocamento populacional, está associada a um aumento do risco de desaparecimento das línguas”, concluem os autores.

Estradas abertas em áreas remotas aceleram o contato entre culturas, muitas vezes sem salvaguardas, provocando um choque com tradições locais. A consequência frequente é a adoção de uma língua dominante, geralmente a usada pelo governo e pelos negócios.

Para o ecologista William Laurance, da Universidade James Cook, as estradas são como uma “caixa de Pandora”. Ele explica: “As estradas são o mais importante fator direto de mudança e degradação ambiental. Uma estrada é aberta e, seis meses depois, a floresta está rasgada como um peixe aberto.” A fragmentação de habitats causada por rodovias também aumenta o risco de extinção de espécies.

Educação monolíngue como fator de risco

Outro fator apontado pelo estudo de Bromham é a educação formal monolíngue. Embora possa parecer contraintuitivo, há evidências de que escolas que ensinam apenas em uma língua dominante levam ao declínio das línguas indígenas. Jovens em busca de oportunidades profissionais são incentivados a abandonar seus idiomas nativos.

Um exemplo vem de Papua-Nova Guiné, país com a maior diversidade linguística do mundo. Pesquisadores Alfred Kik e Vojtěch Novotný documentaram um declínio “vertiginoso” nas habilidades linguísticas indígenas e no conhecimento sobre flora e fauna locais entre estudantes. Isso ocorre porque o inglês é a língua de instrução e o tok pisin, um crioulo, domina os espaços escolares.

Conhecimento ecológico tradicional em risco

K. David Harrison, linguista ambiental, destaca que as línguas indígenas são “centradas na natureza”, com ricos vocabulários para plantas e animais e gramáticas que codificam informações sobre o ambiente. Esse conhecimento ecológico tradicional é uma “biblioteca viva” transmitida oralmente. Quando uma língua se extingue, esse saber desaparece.

Segundo Gorenflo, comunidades indígenas têm um histórico de uso sustentável dos recursos naturais. “O conhecimento ecológico tradicional oferece um vislumbre de como as pessoas se adaptam aos recursos naturais e os utilizam sem destruí-los”, afirma. Kik alerta que a perda da língua implica a perda desses saberes, o que terá impactos diretos na conservação ambiental.

Ações prioritárias para conservação

Os pesquisadores sugerem que recursos escassos da conservação sejam direcionados para paisagens que concentram alta diversidade ecológica e linguística. Também é urgente apoiar a documentação de línguas indígenas e de conhecimentos etnobiológicos, especialmente em comunidades onde ainda há falantes.

Em ambientes educacionais, a implementação de programas multilíngues, especialmente em educação ambiental, pode ajudar a preservar as línguas. Sempre que possível, os anciãos devem ser ouvidos, transmitindo seus saberes diretamente.

Para ambientalistas, a mensagem central é que a extinção de línguas e culturas é também uma questão ambiental. Apoiar povos indígenas na liderança de suas próprias formas de conservação pode beneficiar tanto a natureza quanto o conhecimento tradicional.